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Wednesday, May 27, 2026

Sobre os séculos que atravessei

Eu vivi um tempo em que não tínhamos tv em casa e nos reuníamos toda noite na porta da vizinha, para ver novelas em preto-e-branco.
Vi surgirem os primeiros carros movidos a álcool.
Rebobinei fitas de VHS e fitas K7 como tecnologias de ponta.
Ouvi CD, vi chegarem os primeiros DVDs, caríssimos! Coisa de rico!
Ouvi o modem chiando nas madrugadas, para não pagarmos muitos pulsos telefônicos.
Vi os primeiros Nokia "tijolões" analógicos, que só funcionavam no meio da rua.
Vi o câmbio automático ser implementado.
Depois, surgiram os "total flex".
Agora vejo foguetes dando ré e carros que andam sem motorista.
Se naqueles 70's, no Sertão pernambucano, algum visitante interdimensional tivesse cruzado o caminho daquela menininha que atravessava a cidade a pé, sozinha, pra estudar no Japiassu, e tivesse falado pra ela sobre essas coisas... Ah! Ela, certamente, contaria em casa que encontrou um louco no caminho da escola e ele falou um tanto de bobagens sem nenhum sentido, coisas que jamais aconteceriam de verdade.
E todos ririam dele e de tudo aquilo que ele lhe contara, como se delírio fosse.
O mundo não gira. Ele dá umas cambalhotas de acrobata, uns loopings de montanha-russa e uns chacoalhos de caminhão desgovernado, de vez em quando!
Em 50 anos eu já visitei tantas eras, que fico a pensar se não se passaram algumas dúzias de séculos, enquanto eu lia Orígenes Lessa em cima da laje da Saldanha da Gama, 144.
Estou ficando muito velha – por dentro! 
Esse correr de séculos em poucas décadas envelheceu muito a minha alma...

EmmyLibra
May 27, 2026 • 1:21 pm

Sunday, June 10, 2012

Fôlego

Eu posso morrer de fome, de frio, de solidão. 
Posso morrer de uma tristeza tão dorida, que não me reste nada dessa vontade de vida que tenho agora.
Posso morrer numa praça, rodeada pelas cores das flores, ou num deserto, na caatinga, numa cela de prisão ou sob um viaduto. 
Posso morrer sob o céu estrelado da noite ou sob a chuva fina, ou sob uma tempestade – que seja!
Posso morrer num abismo, daqueles bem profundos, me jogando do precipício, num voo icário.
Posso morrer num leito morno e macio, com um prato de caldo verde fumegando e exalando seus vapores aromáticos numa mesinha ao meu lado.
Posso morrer num revés de sorte, por uma bala perdida, ou por uma espada afiada, separando-me da vida bruscamente.
Posso morrer doendo, sofrendo, agonizando, suando, chorando – lentamente.
Posso morrer num êxtase, num prazer tão intenso, que toda a minha vida se resuma nesse instante.
Posso morrer de tédio, de raiva, de desespero.
Posso findar meus dias num hospício, ou no mar, à deriva.
Posso morrer de amor... Tanto faz!  Eu só quero estar em mim mais do que estive em qualquer outro momento deste durante, que é a vida.
Não quero mesmo é morrer daquela morte que um dia alguém chamou de severina, em que se morre "de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia...”*
Quero estar lúcida, consciente, em meu instante derradeiro.
Quero sentir a brisa, se houver; ou as gotas de chuva, se houver; ou o sol me secando, se houver.
Mas, acima de tudo, quero morrer na hora certa, no tempo de morrer, nunca antes da hora, nunca antes do dia.
– Morrer de véspera, nem pensar!
Melhor:  quero morrer, se possível, no instante seguinte ao ideal.  Quero ter um instante a mais, um fôlego a mais, uma sinapse...
Quero um pensamento último, uma idéia que se cristalize em mim, quando eu me despedir.
– Quão maravilhoso é pensar!  Quanta vida guardada, quantas possibilidades numa boa idéia!
Se um instante a mais me for dado, e meu cérebro produzir um pensamento bom, desses que podem salvar o mundo do desespero e da rotina, ou uma idéia que preserve as baleias do oceano, um projeto inteiro num breve suspiro, então eu terei vivido uma vida a mais, inteirinha, naquele segundo eterno, em que o ponteiro do relógio se demore a mover.
Uma vida inteira ali, vivida de súbito, súbita como o abraço da morte...
Uma segunda vida, uma segunda chance.  Num breve instante – que importa?
Que me importa do que vou morrer, onde vou morrer, em que condições o anjo devastador me encontrará?
Desde que ele não se apresse, que me seja gentil, que traga em si a tolerância desse instante a mais de vida, a generosidade de me permitir uma idéia, um lampejo de luz que aclare minha fronte como um relâmpago, ou mesmo como o leve piscar de um vaga-lume, então eu abraçarei esse anjo sem reservas, sem queixas e sem remorsos, sem raivas nem temores, sem mágoas...
De que me importa do que será feito o meu momento final?  Quero todos os momentos que lhe precedem, um a um, sem poupanças, sem economias.  Todos.  Todos os momentos, precisamente.  Em cada dor ou alegria de que sejam feitos, quero-os todos!
São meus, os momentos, de mais ninguém.
Minha vida é minha.  E assim será, mesmo depois da morte, em cada mover dos ponteiros que se prolongue, guardando em seu percurso a minha história inteira.
Hoje eu sou.  Isso me basta.  Mas jamais me bastará, se meu último instante acontecer em qualquer momento anterior ao devido.  Ou se qualquer dos precedentes me for espoliado.
Posso morrer de amor, de dor, de fome, de frio, de solidão.  Posso morrer aqui, ali, num deserto ou num jardim, sob estrelas ou raios, sob o sol ou sob a chuva – Que importa?
Só preciso daquele tolerante instante a mais, que o anjo me dê.  E do pensamento, da sinapse lúcida e criativa, da boa idéia que salvaria o mundo, as baleias, uma lagartixa...
Quero um lampejo de vida final, para que toda a vida tenha não apenas valido a pena, mas duplicado-se a si mesma, dentro de um breve suspiro...

EmmyLibra
May 30, 2012 - 8:42 a.m.



* Citação extraída do texto Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.