Wednesday, May 27, 2026

Sobre os séculos que atravessei

Eu vivi um tempo em que não tínhamos tv em casa e nos reuníamos toda noite na porta da vizinha, para ver novelas em preto-e-branco.
Vi surgirem os primeiros carros movidos a álcool.
Rebobinei fitas de VHS e fitas K7 como tecnologias de ponta.
Ouvi CD, vi chegarem os primeiros DVDs, caríssimos! Coisa de rico!
Ouvi o modem chiando nas madrugadas, para não pagarmos muitos pulsos telefônicos.
Vi os primeiros Nokia "tijolões" analógicos, que só funcionavam no meio da rua.
Vi o câmbio automático ser implementado.
Depois, surgiram os "total flex".
Agora vejo foguetes dando ré e carros que andam sem motorista.
Se naqueles 70's, no Sertão pernambucano, algum visitante interdimensional tivesse cruzado o caminho daquela menininha que atravessava a cidade a pé, sozinha, pra estudar no Japiassu, e tivesse falado pra ela sobre essas coisas... Ah! Ela, certamente, contaria em casa que encontrou um louco no caminho da escola e ele falou um tanto de bobagens sem nenhum sentido, coisas que jamais aconteceriam de verdade.
E todos ririam dele e de tudo aquilo que ele lhe contara, como se delírio fosse.
O mundo não gira. Ele dá umas cambalhotas de acrobata, uns loopings de montanha-russa e uns chacoalhos de caminhão desgovernado, de vez em quando!
Em 50 anos eu já visitei tantas eras, que fico a pensar se não se passaram algumas dúzias de séculos, enquanto eu lia Orígenes Lessa em cima da laje da Saldanha da Gama, 144.
Estou ficando muito velha – por dentro! 
Esse correr de séculos em poucas décadas envelheceu muito a minha alma...

EmmyLibra
May 27, 2026 • 1:21 pm

Wednesday, April 15, 2026

Sinais

Quando o universo fala, é apenas um sussurro em meio às nossas estridentes distrações sonoras de pensamentos preocupados em sobreviver. Se não estivermos atentos, não perceberemos seus pequenos recados cotidianos. Mas, basta acurar um pouco o ouvido, e ele nos contará todos os segredos que se ocultam após a próxima curva do caminho. Então, não somos pegos desprevenidos.
Ler sinais é a alfabetização que recebemos da dor, nossa professora implacável, que dá as provas antes da lição.
Sobrevive quem aprende a decifrar as mensagens que chegam nas movimentações do ambiente, como peças de um xadrez, no qual ocupamos o posto de Rei, sempre propenso e ameaçado de um xeque-mate. Mas, é bom lembrar que o xeque nem sempre vem primeiro! 
Ler sinais e prever os próximos movimentos do jogo da vida prolongam um pouco a nossa partida, que na verdade já começa perdida – já que do outro lado do tabuleiro está o tempo, que nos corrói a cada respirar!
Pois bem, eu aprendi a ler sinais. Minha professora implacável não economizou em suas provas!
Cá estou eu, caminhando por uma estrada que é minha velha conhecida, pisando os mesmos velhos ladrilhos rotos e misturando minhas lágrimas à chuva fina que continua a cair sobre minha cabeça, desde que nasci.
Às vezes, penso se não seria bom o analfabetismo anestesiante, que faz tantos viverem no conforto das ilusões.
Saber o que se desvendará na próxima curva não significa sempre vencer o jogo, mas apenas viver em eterna vigilância e expectativa. Quando dói, a dor também é uma velha conhecida, como os velhos ladrilhos o são, sob meus pés descalços.
Ler sinais, entretanto, é um impositivo natural. Como ler um letreiro numa parede. Se somos alfabetizados naquele idioma, não conseguimos evitar o conhecimento da mensagem, uma vez que ela se nos chega em letras garrafais.
Então, não há ruído que nos impeça de ouvir os sussurros do universo e compreender os seus recados, se os nossos ouvidos de ouvir já se abriram. Uma vez abertos, já não mais se fecham. As mensagens se impõem.
E a dor... Ah! Essa sempre dói do mesmo jeito.

EmmyLibra
Apr 15, 2026 - 8:38 am

Tuesday, December 09, 2025

Entre flores e punhais

Algumas pessoas nos inspiram virtudes, outras nos despertam malícias; umas alimentam nossas almas com paz, outras nos deixam esfomeados de esperanças; umas iluminam nossas noites frias, outras nublam nossos dias de sol. Algumas entram em nossas vidas por nossas escolhas. Mas, outras vêm de brinde nas experiências cotidianas involuntárias.
Há pessoas que, de certo modo, se impõem em nossa rotina por motivos mil e nos impomos às vidas delas também. Quando nos damos conta, nos vemos submetidos uns às influências dos outros, sejam elas positivas ou perniciosas. Um dia, elas nos afagam, noutros nos ferem.
Nós também, uns dias afagamos, noutros ferimos. E a vida segue, entre flores e punhais.  Doses homeopáticas de amor e dor que, em equilíbrio, nos curam e santificam. Mas, em desequilíbrio, envenenam nossas almas.
O tempo vai abrindo portas e deixando a luz entrar. Enxergamos algumas verdades doces, outras verdades dolorosas. Enxergamos más intenções de uns e boas intenções de outros. E podemos filtrar o que nos abate e o que nos eleva; o que nos magoa e o que nos enche de esperanças e fé.
Estamos nessa montanha-russa da vida, subindo e descendo, num trem de emoções que não pára para descermos quando queremos. Podemos ir até a estação final, passando por loopings e calmarias, sem desistir. Ou soltamos o cinto de segurança e nos lançamos para fora do trem numa de suas curvas, conhecendo as profundezas do abismo escuro da inexistência voluntária.
Vale a pena viver fazendo malabarismos com flores e punhais? 
Talvez até valha.
Mas, ao menos para mim, em minhas experiências pessoais, a constante tensão de manusear lâminas afiadas me faz perder o sono, de vez em quando. Exaure minha alma. Eu não consigo me deter no perfume das flores, sabendo que há possíveis lâminas vindo em minha direção.
É tão incômodo enxergar essas coisas!
Seria bom poder contar sempre com bondades e lealdades. Mas os valores andam em escassez. Poucos os têm, verdadeiramente.
Desacreditar dos seres humanos que nos cercam é muito angustiante...

EmmyLibra
Dec 9, 2025 - 2:25 pm

Friday, November 28, 2025

Não ame!

O que eu diria sobre amar? 
Não ame!
Se já ama, não o diga!
Se já disse, não o demonstre!
Se já demonstrou, não se iluda:  por mais demonstrações de amor e devoção que você der, elas não compram o almoço nem pagam as contas no final do mês.  Não tarda, e alguém venderá o seu amor por qualquer trocado que resolva essas coisas.
Então, você descobrirá que vale bem pouco nesse mercado louco da vida.
Vai por mim: não ame! 
Se já ama... 
Ah! Esquece! Faz o que achar melhor!
Só não fala depois que eu não lhe avisei.

EmmyLibra
Nov 28, 2025 - 8:20 pm

Monday, November 24, 2025

Desonestidade

O desonesto amaldiçoa a si mesmo e à sua própria vida. Maldito é o ganho feito desonestamente!

A abundância material obtida enganando e fraudando é maléfica. Seus ganhos não são duradouros nem abençoados. (ref. Pv 21:6). 
O tempo é um cobrador infalível e jamais esquece de vir buscar, inclusive os juros, na proporção da falta que cada centavo fez ao outro.
Quando tira de alguém sua subsistência, sua capacidade de comprar um alimento ou remédio, é para si que o desonesto atrai a fome, a miséria e a doença. Essas coisas, um dia, entrarão em sua vida sem pedir licença, pois ele já as convidou quando agiu mal, conscientemente.
Honestidade não é apenas uma virtude. É a chave da prosperidade material e espiritual.
Uma alma não sobe ao céu com o peso das moedas obtidas desonestamente em seus bolsos.
Disse Jesus: "Ninguém sairá daqui até que pague cada ceitil da sua dívida." (Mt 5:26 / Lc 12:59)
Portanto: "Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tem necessidade." (Ef 4:28)

EmmyLibra 
Nov 24, 2025 - 9:10 am

Tuesday, November 19, 2024

Verbo

Amar é verbo.
Verbo é ação.
Nunca foi sentimento, passivo e infrutífero.
O ato amoroso se materializa no cuidar.
Ama de verdade? Cuide!

EmmyLibra
Nov 19, 2024 - 1:27pm

Thursday, August 08, 2024

Cuidados

O que fica quando já não mais estamos é o cuidado que dispensamos ao outro.
Amor que não cuida é palavra vã. É hipocrisia.
Somos finitos. Mas nossa herança maior é alguma gratidão. Ela é que nos ajuda a limpar nossas imperfeições.
Já nos disse o Mestre da Galiléia que o amor cobre uma multidão de pecados.
Para isso, o amor precisa ser cobertor que aquece.
Seja pelo pão, que aquece a esperança do faminto;
Seja pela palavra, que aquece o coração do angustiado;
Seja pelo abraço, que aquece a afeição do solitário;
Seja por qualquer gesto que materialize o amor, tirando-o do campo das idéias e transportando-o ao campo frutífero da ação generosa.
Assim como a fé sem obras é morta, também o amor sem obras é vazio, frio, estéril.
Amemos, mas com atitudes. 
Dizer o amor é fácil. Sua vivência cotidiana é que é a parte que o santifica.

EmmyLibra
Aug 8, 2024 - 10:47am

Sunday, June 16, 2024

Transcender

A imaginação é uma ferramenta poderosa do carisma.
Ser uma outra pessoa no palco, diferente da pessoa da vida real - essa do cotidiano, que faz o almoço e lava o chão do quintal - é imprescindível!
Há quem não entenda. Há quem não pense nisso. E há quem pense que a das luzes, com microfone na mão, seja a única pessoa que me habita.
Mas, quem iria ver a pessoa que arruma a casa, limpa a caixa de areia dos gatos, lava roupas e faz compras no supermercado?
A Emmy que sobe ao palco é muito mais interessante!
Ela chega onde a dona de casa jamais chegaria.
É sedutora, às vezes. Engraçada, às vezes. Parece até que está falando individualmente com cada expectador!
E não está?!
"Ora, ora! Se não era para mim que ela apontou, quando disse que não me divide com ninguém, enquanto cantava 'A Loba', da Alcione, para quem mais seria?"
Fico feliz, porque nessas horas, consigo fazer as pessoas sentirem-se dentro do espetáculo, fazerem parte, sonharem...
Alguns pedidos de casamento eu precisei rejeitar, por motivos óbvios! - afinal, a que se casa é a que faz o almoço e limpa a caixa de areia dos gatos, e, por sinal, já se casou!
Os abraços sempre me aquecem, e o calor afetuoso que vem deles fica em mim, dentro de mim, como chama que consome a mesmice dos dias de lavar louça e me mantém viva, até o próximo palco.
Alguns elogios me deixam saber que estou fazendo bem o meu trabalho.
Mas, em absoluto, nada se compara à lágrima emocionada, num rosto extasiado em meio à multidão!
Esse é o presente especial de Deus, em uma ou outra data em que geralmente saio de casa sem propósitos maiores, mas me deparo com uma alma diferenciada a encontrar-se com a minha, nessa providência divina que me dá sentido, através da arte para a qual Ele, o Criador, me preparou.
Algumas vezes eu senti a transcendência de tocar um coração e segurá-lo entre as minhas mãos, num peito aberto, rasgado, exposto, molhado de lágrimas sutis...
Não tem preço! 
Ainda um dia desses, há pouco mais de dez anos, eu não preveria viver esses momentos que me imortalizam dentro de uma lacuna mágica no tempo, e fazem toda a espera de uma vida valer a pena.
Quanto valem esses momentos?
Valem tanto... 
Nascem de uma introjeção de sentimentos quase sempre alheios e emoções que nem sempre são minhas, mas que alguém, ao compor sua arte, deixou ali, como uma nascente a me fartar de suas águas inspiradoras.
A empatia me norteia e alguma alma me acolhe. 
Eu nunca sei quando virão pedidos de casamento ou abraços mornos, muito menos quando cairá uma lágrima.
Não me preparo para isso tudo. Mas colho cada gesto como frutos doces num pomar ensolarado e me alimento deles.
A Emmy que sobe ao palco repousa na pessoa comum do cotidiano. A pessoa comum do cotidiano ainda respira porque a dos palcos um dia nasceu.
Fazendo minhas as palavras do Gonzaguinha, "Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis aqui uma pessoa se entregando... Tudo que você ouvir... Estarei vivendo."
Para quem não me conhece, sou Emmy Matias. 
Bora de música?
;)

EmmyLibra
Jun 10, 2014 - 9:12 a.m.

Friday, June 14, 2024

Quase-vida

Tive várias "quase-mortes", desde o exato dia em que nasci. Pelo menos em sete delas, eu cheguei bem na beiradinha do abismo mesmo, além das inúmeras situações de risco que passei, como, por exemplo, ter estado no meio de um incêndio, duas enchentes e outras incidências do mesmo nível de periculosidade.
Todas essas vivências limítrofes deixam um aprendizado. E eu compreendi, analisando meus primeiros 50 anos de vida, com suas tantas "quase-mortes", que eu, na verdade, sempre tive uma "quase-vida"... Como a maioria das pessoas tem, aliás.
Mas, ter uma quase-vida nem é o problema. Problema mesmo é constatá-lo! - A ingenuidade é muito confortável!
Saber disso começa a incomodar...
É estranho que poucas pessoas se dão conta de que têm a missão terrena de viver plenamente, mas vivem pela metade, conformam-se, deixam-se alienar.
São aprisionadas mentalmente por muitas armadilhas.  
Sucumbem facilmente ao consumismo, incentivado pelas publicidades da tv e vitrines das ruas. 
Sucumbem aos discursos inflamados dos políticos, com suas promessas de benesses e favorecimentos. 
Sucumbem à fé cega, preguiçosa e comodista, manipulada nos templos de tijolos, com seus líderes interesseiros, assalariados, pregando uma salvação fast-food que o Cristo jamais ensinou.
Sucumbem aos pseudo-cientistas, com seus jalecos maculados pelas moedas sujas que ganham da indústria farmacêutica
Sucumbem às pseudo-artes que se ofertam em seu entorno, calculado para ter cores e sons emburrecentes.
Sucumbem aos vícios químicos e dependências psíquicas diversas.
Sucumbem aos sentimentos de culpas e auto-flagelos inúteis, aos quais se submetem, na ilusão de que eles lhes farão melhores ou mais dignos da piedade divina.
Sucumbem às necessidades tantas, sob as quais os apelos sociais nos condicionam, sem que percebamos, e que tornam-se suas piores conselheiras...
Somos escravos. 
Existimos pela metade. Talvez muito menos do que pela metade!
Tantos são os que vivem num quase nada, desconhecendo quase tudo, principalmente suas potencialidades individuais!
Tantos são os que aceitam ser o que agrada aos olhos alheios, castrando-se, podando-se, limitando-se, encabrestando-se, acorrentando-se...
Somos infinitamente menos do que poderíamos ser, se não tivéssemos o olhar social a nos vigiar. Seríamos tão maiores, se não nos encontrássemos inseridos em culturas subjugantes, com suas "regras-para-tudo" a nos adestrar...
Existe alguma liberdade na lucidez? 
Eu digo que não. Definitivamente, não!
Talvez, na insanidade mais profunda e incontrolável, poderíamos experimentar alguma autonomia, alguma vontade própria.
Mas é aí que aqueles que amarram os próprios pés nas mós pesadas dos condicionamentos sociais usam suas tesouras afiadas para cortarem as asas dos que ousam tentar voar. E os chamam de loucos! E os trazem de volta à lucidez doentia, com as químicas "perfectantes" daquela velha indústria farmacêutica, com seus pseudo-cientistas fazendo seu merchã para ela disfarçado de entrevista no telejornal noturno, com aquela musiquinha hipnotizante na abertura e cores meticulosamente escolhidas no plano de fundo...
À constatação de que vivemos anuentes aos que nos subjugam já chegaram alguns - poucos; à constatação de que a teia de conceitos e "regras e tratados e filósofos e sábios"¹ a nos condicionar é densa demais, talvez intransponível no sistema ao qual nos engendraram os mandatários do mundo, também chegaram alguns - menos ainda!
Estamos condenados a viver pela metade, crendo por vias e práticas enganosas que teremos vida eterna e plena. 
Sacerdotes e mentores espirituais nos altares, com seus livros (quase) sagrados (tantas vezes indecentemente violados pelos escribas antigos, pagos para adequarem os textos ao que era conveniente aos poderosos), nos dizem que basta lermos a receita, sem tomarmos os remédios amargos, e a cura virá. Tudo sem esforços. Tudo fácil. Tudo sedutoramente confortável e automático. 
Para quem será que interessa nos manter nessa ignorância cômoda, nessa anestesia mental?
Vivemos pela metade, recebendo migalhas do Estado, com seus assistencialismos, fabricantes de parasitas sociais.
Vivemos pela metade, deixando aos filósofos pensarem por nós e aos professores e sacerdotes nos ensinarem teorias inexeprienciáveis como se verdades incontestáveis fossem.
Vivemos pela metade. Sonambúlicos. Zumbis.
Aqueles que despertam para a realidade - ou em linguagem de hoje, tomam a "red pill" - fatalmente sentirão a lâmina fria da tesoura afiada dos "lúcidos" espectadores do telejornal noturno, a lhes aparar as asas da ousadia. 
Vivemos pela metade, até que um dia, um ou outro abre os olhos de ver e é rapidamente degolado, antes que cutuque o sonâmbulo ao lado e o contamine com seu despertar inconveniente.
Ter uma quase-vida nem é o problema. Grave mesmo é constatá-lo! 

EmmyLibra 
Jun 14, 2024 - 9:20 a.m.

1 Régio, José. in Cântico Negro.

Wednesday, March 13, 2024

Margens

Há pequenos prazeres 
Que nos ajudam a sair 
Do caminho de pedras desiguais, incômodas
Para as margens floridas, 
Como se a elas pertencêssemos.

Pisar a grama, com pés descalços...

Mesmo que seja por alguns segundos,
Fecundos
De algum sentimento amoroso
E morno.

E nos esquecemos, por breves momentos...
– que seja! Quem pode condenar o sonhador?
...de quantas dores se faz um desengano.

Deixe-me sonhar, então!
E entregar em suas mãos
Um pouco de flores,
Colhidas daquela estreita margem
Que ousei pisar, saindo da rota áspera
Dos meus dias reais,
Para os mágicos instantes
Das suas gentilezas,
Do seu carinhoso abraço
E da acolhedora hospedagem que recebo
Em seu coração.

Deixe-me respirar um pouco mais fundo!

Ao lhe entregar pequenas flores
Colhidas da margem do meu caminho,
Também desfruto do perfume que delas se exala
E tenho a nítida sensação
– Ilusão? Que importa?
De que posso habitar essa margem,
Sempre que os meus dias reais
Doam mais do que posso suportar.

EmmyLibra
Mar 13, 2024 - 7:36am

Tuesday, May 23, 2023

Nietzsche matou Deus?

Primeiro, vamos pensar sobre as religiões.
Nunca foi sobre salvação; nem sobre Deus existir ou não; tampouco sobre a ética e a moral no aspecto íntimo de cada um.
Sempre foi sobre ter poder, domínio, status, ganhos materiais, controle social.
Foi para os líderes pela vaidade de serem aqueles que têm em si alguma prerrogativa "sagrada" para a condução dos demais.
E foi, para as "ovelhinhas" a coroação da preguiça e a ausência de responsabilidades.
Não precisa pensar por si mesmo, basta seguir os inquestionáááveis dogmas da crença que abraça; não precisa agir, basta crer; não precisa ser ético, moral, correto, basta que outro tenha sido martirizado em seu lugar; não precisa raciocinar sobre a realidade, basta contemplar mistérios sem sondar-lhes a essência.
Se eu creio em Deus?
Não. Crer é temporal. Quem crê hoje pode descrer amanhã. E vice-versa. Compreendi isso numa fala do  Divaldo Franco, certo dia, quando ele disse: "Eu SEI Deus. E uma vez que sabemos, não tem como des-saber. Como quem sabe ler e, mesmo que se recuse, basta ver as palavras escritas, automaticamente, já leu."
Pois bem, eu também SEI Deus. Aprendi Deus.
E por saber Deus, eu fujo das ideias equivocadas da crença em deuses criados pelos homens.
Esses deuses estranhos, vingativos, vaidosos. Deuses sem onisciência e dependentes de moletas como livros e  sacerdotes para existirem. Deuses sádicos, cheios de fetiches, que esperam rituais, sacrifícios e martírios humanos em troca de seus pequenos favores. Deuses que se comprazem em condenar quem não se prostra aos seus pés.
O Deus que eu SEI é tão diferente dessas imagens mentais...
Bem... Talvez Friederich Nietzsche dissesse que eu sou apenas uma pessoa com mestrado em idiotice.
Não tenho problemas com isso!
Porque para mim, ele é apenas um filósofo bastante inteligente, mas cuja existência faz tanta diferença em minha vida hoje quanto eu nunca ter visitado Marte. É tão relevante pra mim quanto antes de eu conhecer uma nesga do seu pensamento.
Meu "saber Deus" importa pra mim; o pensamebto de Nietzsche importou para ele e quem o elege como seu guru.
Comparo a dependência psíquica das "ovelhinhas" a quem, sem ter a atitude concreta de pensar (por mais abstrato que seja o pensamento), envereda-se pelas ideias de Nietzsche ou de quaisquer outros filósofos, antigos ou contemporâneos, para justificar suas crenças ou descrenças, transferindo-lhes o poder de conduzir suas mentes, como fazem também os sacerdotes.
Dê a Nietzsche ou a qualquer filósofo esse status e não terá o direito de criticar aqueles que transferem aos líderes religiosos ou a livros sagrados e rituais o seu dever de autoconhecimento e da manutenção de virtudes apenas para seu engrandecimento íntimo.
Muitos, sem perceber, dão a filósofos o status de divindades sobre a Terra.
Dizem por aí que Nietzsche foi "o filósofo que matou Deus".
Ele não matou Deus.
Acho que ele apenas quis sê-lo.

EmmyLibra

Thursday, July 14, 2022

Em extinção

Raciocine comigo:

- Um vírus matou uns milhões;
- Vacinas matando outros milhões;
- Papa mandando os jovens comerem menos carne, "para salvar o planeta";
- Bill Gates dizendo q vamos comer insetos em breve, e já tem experimentos sendo feitos com a inclusão de baratas e larvas de moscas em alimentação animal, mas há alguns dias noticiaram que vão incluir essa bizarrice na dieta das crianças em creches e escolas ao redor do mundo (eca!!! 🤮).

Sabemos que a raça humana, mesmo não tendo grande porte físico em relação a outros animais, como tigres, leões, elefantes etc., se tornou dominante porque criou ferramentas rudimentares para compensar sua estatura e fragilidade. 
No entanto,  só desenvolveu-se intelectualmente porque alimentou-se de proteína animal, associada aos vegetais.
Animais exclusivamente carnívoros ou herbívoros não tendem a esse desenvolvimento.
Consumir leite, ovos e carne fez toda a diferença ao longo dos séculos, para que chegássemos ao mundo desenvolvido e informatizado que temos hoje.
(Vamos pensando...)

Há poucos dias foi destruído um monumento que serviu de aporte à teoria de "esvaziamento do planeta" como solução para os problemas de muitos povos. 
Eram as "Georgia guidestones" (pedras-guias da Geórgia), que continham 10 mandamentos substitutos do Decálogo Divino. 
O 1° deles dizia que deveríamos eliminar (matar, exterminar) 6,5 BILHÕES de pessoas, para termos um planeta perfeito, um "resort natural".
Dos 7 BI existentes hoje, deveriam restar apenas 0,5 BI, ou seja, 500 milhões. 
Isto equivale 2 vezes a população do Brasil e um pouquinho mais, ocupando a vastidão do planeta Terra.
🤔
Sendo que as teorias "salvacionistas" de quem seguiu esses mandamentos das "pedras guias" evoluíram para detalhar que eles deveriam selecionar muito bem os que herdariam o planeta "maravilindo" dali por diante.
Em outras palavras, seria necessário determinar quais pessoas deveriam morrer para liberar espaço pros escolhidos.

Dentre os impositivos, se incluíam:
-  A escolha das raças que deveriam compor a população;
- A procriação controlada pelos governantes (isso mesmo! Nada de se apaixonar, casar e ter filhos como quiser! O governo diria quem miscigenaria com quem, colheria os gametas, faria embriões perfeitos em laboratório e implantaria nas fêmeas adequadas a gerá-los!)
- Alimentação controlada;
- Tarefas de cada um controladas;
- TUDO controlado.

Por quem??

Por uma elite. 

20% desses sobreviventes deveriam ser intelectuais, bilionários, políticos, artistas...
Os 80% restantes "serviriam" a essa elite, na produção de alimentos e manutenção dos espaços.

Agora, a pergunta que não quer calar:
Por que insistem tanto em esvaziar o planeta e quase extinguir a raça humana? Quem ocuparia os espaços restantes, se TODA a população caberia no território europeu com folga, ou no Canadá, ou nos EUA, ou mesmo no Brasil?
Pra que (ou pra quem) eles estão querendo esvaziar o planeta?
🤔

O que está por trás disso tudo?

E antes que você diga que é loucura ou  teoria da conspiração, é só dar-se ao trabalho de pesquisar e observar as falas dos "poderosos", como eu tenho feito.
Não faltam notícias na internet falando escancaradamente dessas coisas!
Mas as pessoas preferem acreditar na Rede Globo, ver novelas, séries "lgbt" na Netflix...
Estão vivendo de circo!
Só que o circo está pegando fogo... E ninguém parece perceber! 
🤡   

EmmyLibra
July 14, 2022 - 12:55 p.m.

Friday, July 01, 2022

Despertadores

Eu sou do tempo que a pessoa pedia "serviço de despertador" à cia. telefônica. Então, no horário combinado, uma telefonista se ocupava de ligar e ainda falava com a pessoa, certificando-se de que ela acordou! ⏰
Antes mesmo da automação do serviço, que depois passou a ser feito apenas com uma gravação da operadora.
Eu ficando velha??? Imagina!!!
Só estou com saudades do tempo em que falávamos com seres humanos nos atendimentos e eram pessoas gentis, afáveis...
Hoje em dia o celular nos desperta com uma musiquinha. Não há um ser vivo se comunicando. E sua influência é tamanha, que às vzs no vemos agindo também com sua desumanidade!

😐

EmmyLibra

July 1, 2022 - 7:40 a.m.

Friday, May 27, 2022

Involução


Acho que muitas pessoas não buscam a informação, não se interessam pelo conhecimento, muito frequentemente pensando que não saber o que acontece à sua volta pode isentá-las das consequências dos fatos.
Maior estupidez de todas!
Acaso, sabe a galinha em uma granja que será abatida? A sua total ignorância do que se lhe desenha como fado não a protege da lâmina afiada que lhe decepará o pescoço em poucos meses de existência!
A sociedade, cada dia mais, se assemelha a animais em viveiros!
A humanidade plena, aquela que nos diferençava das outras espécies pelo intelecto desenvolvido e pelos comportamentos regidos por esse intelecto, está em extinção.
Restam agora poucos espécimes do homo sapiens, pelo visto. A esmagadora maioria de nós está, paulatinamente, regredindo ao primitivo estágio das necessidades fisiológicas sendo saciadas instintivamente e os territórios sendo conquistados à custa de disputas sangrentas. 
Os indivíduos perderam os valores ético-morais que os fazia agir moderada e inteligentemente para a solução dos problemas comunitários.
A roda não está muito longe de ser desinventada!

EmmyLibra
May 27, 2022 - 12:48 p.m.

Tuesday, March 15, 2022

Sobre o Tempo II

"O tempo não pára." 
(Cazuza)

Quando voltamos para o apartamento esses dias, e me vi no mesmo espelho de antes, não reconheci a pessoa que havia nele.
Passei dois anos fora da rota, mas passaram-se 20 anos para mim, nesse intervalo.
Antes, o tempo caminhava macio, calçado em meias de lã, eu nem conseguia ouvir seus passos ou prestar atenção no seu abrir e fechar de portas.
Agora, ele pisa por cima de mim com botinas e esporas, e corre veloz, num cavalo enorme, pelas campinas ressecadas dos meus dias preocupados.
Tornou-se para mim, de eloquente professor, em implacável algoz!
E já não me ensina como outrora, mas apenas me castiga pelas lições que negligenciei aprender, enquanto ele caminhava silente entre os móveis da minha sala.
Eu sempre gostei do tempo.
Nunca me importei com as suas ferramentas abrindo sulcos no meu rosto ou na minha alma. Mesmo doendo de vez em quando, eu ainda aguardava pacientemente pelo dia em que sua escultura estivesse pronta.
Mas ela não fica pronta nunca!
Ele esculpe sem parar, e vai tirando lascas cada vez maiores, e elas doem mais e mais fundo, enrugando mais a minha esperança do que a superfície do meu corpo.
Mas eu não peço que ele pare o seu trabalho. Não! Eu jamais pediria!
Ao contrário, eu quero mesmo que acelere as coisas! 
Que ele termine logo o que começou naquele outubro distante em que, talvez por preguiça ou má vontade de começar uma nova escultura, tentou me arrastar por asfixia. Veio o doutor Genecy e não deixou, aplicando-me a primeira e caprichada surra de trinta e cinco palmadas estaladas no traseiro, recurso rudimentar, mas eficaz, àquela época.
Meu velho e ranzinza amigo tempo, meu mestre e artesão, meu algoz impiedoso... Um dia ele extinguirá minhas memórias e lembranças, deletará pessoas e lugares que conheci, até que, por fim, me dará a calmaria do esquecimento de mim mesma, apagando todas as luzes e fechando todas as portas, para que nada atrapalhe o meu sono.
Confio nele. Às vezes pula algumas etapas, às vezes impacienta-se e acelera as coisas, mas nunca, jamais deixa de cumprir o seu fim.
Ao termo da vida, quem sabe, ao me olhar uma vez derradeira no espelho do meu apartamento, eu consiga reconhecer algum traço da pessoa que um dia eu gostei de ser.
Até lá, deixem-me quieta.
Shhh!! Não quero atrapalhar o artífice, enquanto ele trabalha em sua escultura!

EmmyLibra
Mar 15, 2022 - 10:30 a.m.

Thursday, December 17, 2020

Escravismo

Quando os homens descobriram o potencial escravista da palavra, dispensaram as correntes.
⛓️
Correntes eram frágeis demais, algum "rebelde, aqui e ali, ainda conseguia quebrar, ao contrário da prisão pelas ideias que, uma vez plantadas, enraizam-se, espandem-se, frutificam, mantendo ciclos de escravidão voluntária, servilismo anuente.
Os chicotes das culpas e medos fictícios que nos imputaram são muito mais eficazes e eficientes do que qualquer açoite na pele. Não cicatrizam. Nos mantêm condicionados indefinidamente.
Mas não há vida plena sem liberdade!
O ser que não busca libertar-se já morreu e ainda não se deu conta!
Aceitar regras ditatoriais e discursos aterrorizantes sem questionar, nos põe infinitamente mais cativos do que foram os antigos escravos acorrentados das senzalas, já que eates sempre lutaram para sair dos cativeiros.
Acordemos!!
O nosso cativeiro mental é feito de grilhões ilusórios, hologramas de grades. Saiamos da escravidão midiática e ideológica, elevando-nos acima dos medos plantados!
Convenceram uns de que são vítimas; outros de que são algozes.
Acorrentaram-nos a passados crueis dos quais já havíamos nos libertado há décadas!
Acabaram com a harmonia que prenunciava o amadurecimento das relações humanas.
Nos jogaram uns contra os outros, usaram nossas fragilidades, transformaram exceções em regras. Nos imputaram culpas e medos e viram que isto era lucrativo, que a dominação era mais fácil assim, com este "modus operandi".
Como podem, então, as pessoas continuarem entorpecidas, acreditando que o cativeiro é abrigo para dias chuvosos??
Digamos NÃO aos ditadores que nos trancafiam dentro das nossas próprias casas, nos amordaçam com focinheiras, nos desinfectam a toda hora e nos afastam uns dos outros, convencendo-nos de que somos nocivos!
Basta!!!
Nada há sobre a Terra que valha nossa liberdade!
Um ser que não busca a liberdade já morreu e não se deu conta!
Lembre-se disso!!

EmmyLibra
Dec 15, 2020 - 11a.m.

Friday, August 28, 2020

Inverno

Uma réstia de sol inunda a sala, mas não aquece.
O inverno, oficialmente, chegou há poucos dias, mas já temos passado tempos bem frios, madrugadas de doer!
Todas as noites eu penso nos moradores de rua, nos animaizinhos abandonados,  tantos que não têm abrigo, vivendo ao relento, morrendo ao relento...
Ainda se irão três meses assim, antes que tenhamos calor novamente. Isso preocupa, sobretudo em tempos difíceis em que uma político-pandemia nos assola.
Tenho ficado angustiada pela situação geral. Às vezes, o meu conforto tem quase o mesmo gosto do sofrimento e a minha proteção tem quase o mesmo cheiro da culpa.
Sei - e aqui o saber é ter ciência, convição - que não sou eu a causar ou agravar coisa alguma. E que o que posso fazer para minimizar, a um que seja, alguma fome ou frio, faço-o. Não se trata disso. Trata-se de comiseração. Não há como estar absolutamente confortável entre as cobertas quentes, quando sabemos que outros milhares não têm sequer um cobertor que evite sua morte na madrugada. 
É um sentimento estranho. Uma piedade que deixa sempre uma pergunta sem resposta pendendo num fio invisível, diante dos nossos olhos: "que posso eu, diante da multidão que sofre, se mal carrego a mim mesma sobre meus calcanhares, muitas vezes sendo até mesmo carregada no colo?"
Tradução do sentimento: impotência.
Uma frustrante sensação de impotência.
Nem orar eu posso!

EmmyLibra
Jun 24, 2020 9:13am

(Nem sei por que não publiquei na data. Deve ser um dos esquecimentos causados pela idade!)

Remissão

Na ilicitude dessas horas tuas
Em que me embriago desse amor volátil,
Esvão-se de mim os pensamentos puros,
A santa castidade de que se fazem os anjos.

Sou nada mais do que esses instantes mornos
Que - dizem muitos - me condenarão 
Aos calores infinitos 
Das chamas ardentes na escuridão profunda,
Onde Deus, muito provavelmente, não está!

Ora, pois! Não é o Ser Altíssimo onipresente, 
Para que de divindade Lhe possamos chamar?

Estaria Ele, também, presente no vão escuro
E fétido e imoral do inferno?
Ou mesmo no leito morno, sobre o qual,
Ainda agora mesmo, me embriago e deliro?

Acaso me contemplará este Ser com seu olhar 
- Supostamente bondoso,
Enquanto me despedace eu em meio ao fogo,
Naqueles dias infindáveis da minha condenação?

Desconsiderará o Criador que o leito e a embriaguez
Estavam cobertos 
Pelo tênue véu de sentimentos amorosos por ti?

Acaso, o que guardo no peito
E que me arrebata aos braços teus a cada estação,
Não serve para cobrir os pecados tantos
Que pesam como fetos mortos
Dentro do meu ventre?

Essas horas ilícitas,
Nas quais me embriago e deliro,
Dizem mais dos Céus do que do Inferno,
Dizem mais de Deus do que de mim,
Dizem mais a Deus do que dizem a mim.

Essas horas ilícitas, banhadas de suores e salivas,
Falam mais de alma do que de corpo,
Falam mais de amor do que de pecado,
Falam mais ao amor do que ao pecado.

Essas horas ilícitas, cercadas de temores
Da materialidade da incompreensão humana,
Não temem o suficiente para que lhe ponhamos termo,
Pois não temem a imaterial Realeza que nos julgará, enfim,
Pelo filtro do amor no qual se banham
E que remirá, um dia,
Pelo batismo inquestionável desse amor,
Todos os pecados humanos,
Lavando todas as honras
E devolvendo-lhes a imácula transparência,
Na qual refletir-se-á
A luminescência das almas - então inocentadas
De toda e qualquer paixão sorrateira
Que, porventura, 
Haja permeado os lençóis,
Enquanto a embriaguez e o delírio
Nos elevava ao êxtase.

EmmyLibra
Aug 5, 2020 - 10:55 a.m.






Thursday, August 13, 2020

Filosofia dos Pacotes

Em nossas vidas, tudo que nos cerca são “pacotes” que compramos, ganhamos ou simplesmente caem de paraquedas no nosso colo. 

Entendamos esses pacotes como sendo compostos de muitos ingredientes: açúcar, sal, mel, pimenta, luzes, sombras, melodias, ruídos, alegrias, tristezas etc. Mas, para resumirmos as ideias, pensemos que os ingredientes que nos agradam são percebidos e sentidos por nós como balões de ar quente que fazem o pacote flutuar, ficar mais fácil de carregar, enquanto os ingredientes desagradáveis nos parecem pedrinhas – ou pedregulhos! – que nos fazem sentir o pacote como se fosse mais denso e pesado para nós. 

Mais balões do que pedras: pacotes leves. Mais pedras do que balões: pacotes pesados.  Mas, vale salientar que são apenas percepções nossas. O que vemos como balões, outros poderão enxergar como pedras e vice-versa. 

Pessoas, coisas, situações, escolhas, tudo! Pacotes fechados, bem amarrados de barbante, muitos com nó cego. Algumas vezes não é possível abri-los para acrescentar ou retirar algo. Alguns, no entanto, vamos enchendo ou esvaziando com o passar do tempo.  

E assim a vida segue, vamos acumulando alguns pacotes, perdendo  outros pelas curvas do caminho, ou simplesmente nos desfazendo deliberadamente deles. Uns nós atamos cada dia mais fortemente, outros vamos afrouxando nós, enfeitando com laços de fitas, colorindo o papel que os embrulha... 

Quando fomos concebidos, éramos pacotinhos para nossas mães. Recheados com expectativas, sonhos, cólicas, aumento de peso corporal, enjoos, dores do parto... Enfim, no pacote-gravidez os balõezinhos das boas expectativas da vida que se desenvolve no ventre vêm juntamente com algumas pedrinhas, sobretudo para a mãe. Para o pai, bem como para os demais familiares, há as mudanças de humor da esposa, as despesas aumentando, os espaços da casa sendo alterados, dentre outras tantas pedrinhas que eles precisam carregar dali por diante. 

Nascemos, crescemos, fazemos escolhas, fazemos amizades, aprendemos. 

No pacote-infância há as brincadeiras, o tempo farto, o desconhecimento dos problemas dos adultos, a vida abundante correndo nas veias, aprender o tempo inteiro, tantos balões de ar quente, que precisamos viver presos por cordinhas para não sermos levados pelo vento em dias de agosto! 

Pedrinhas, para algumas crianças, são poucas: joelhos ralados, arrancar dentes, brigas com os irmãos ou primos, coisas banais. Para outras, no entanto, há pedras colossais de violências sofridas, abusos, perdas, fome e miséria. Para estas, o pacote-infância é um fardo difícil demais de carregar. 

No pacote-vida-escolar tem balões de aprender e pedras de exames e provas; tem balões de colegas bem legais e pedras daqueles coleguinhas chatos que bebem nosso juízo de canudinho!  

No pacote-família temos os balões mais quentes e leves, porém, talvez nesse tenhamos também as pedras mais duras e pesadas. São pais, avós, irmãos, primos, filhos, parentes e agregados, cada um com suas cargas emocionais, seu jeito de ser, uns doces, outros amargos, uns bondosos conosco, outros que nos massacram, uns que nos enriquecem o dia-a-dia, outros que sugam nossas energias.

Mas o pacote família é uma referência!  Com seus ingredientes aprendemos, crescemos, temos oportunidade de desenvolver habilidades sociais valiosas! Entretanto, é bem comum desconsiderarmos os balões das virtudes de cada membro que nos acompanha ao longo do existir. Insistimos, muitas vezes, em enxergar mais as pedras daquilo que não gostamos em nossos familiares do que o lado bom de estarmos com eles nessa jornada.

Família é um pacote compulsório. Mas, curiosamente, enquanto o carregamos fazemos parte dele, estamos vestidos nele! 

Lembro-me quando decidimos ir embora do Nordeste para Minas Gerais. O pacote-mudança incluía todas as expectativas boas e ruins, pois não sabíamos o que nos esperava em terra tão distante e culturalmente tão diferente da nossa. Era um grande pacote-surpresa neste sentido.  

Havia nele, logo de cara, as pedras de deixar para trás amigos queridos, parentes que demoraríamos muito tempo para rever. Medos e anseios se misturavam dentro do nosso pacote, mas à medida que o tempo foi passando, muitos balões surgiram: grandes amigos, trabalhos, aquisições materiais e imateriais, então o pacote-Minas-Gerais foi ficando cada dia mais leve. 

Falando em amigos, antes de tudo são pessoas. O pacote-gente é uma das mais preciosas aquisições. Mas são eles os mais bem amarrados, com muitos cordões e nós bem firmes, geralmente não podemos abrir e modificar seu conteúdo. 

Pessoas têm virtudes tantas! Mas carregam em si vivências que as fazem peculiares, únicas. São gozos e dores, ganhos e perdas que se amontoam e dos quais elas se compõem. Não podemos levar para nossas vidas um pacote-pessoa e achar que podemos obrigá-las a jogar fora de si os ingredientes que nos desagradam, para serem o que idealizamos. É ilusão! 

Amigos, familiares, colegas de trabalho, líderes políticos... Todos, invariavelmente, terão em si características-balões e características-pedras, influenciando quão leves ou densos os vemos.  

Se vai levar para algum nível da sua existência um pacote-gente, é bom lembrar da inviolabilidade dos seus lacres! Não há como esvaziá-lo do que nos desagrada para que fique leve. Mas, sobretudo, é fundamental ter em mente que também seremos pacotes para essa pessoa. 

Pôr o pacote-eu na balança me preocupa? 

São válidas as seguintes reflexões: quão densos temos sido? Quão fácil ou difícil tem sido para as pessoas à nossa volta carregar o pacote da nossa companhia? Quanto temos nós enchido nossos balões-virtudes em favor de facilitar a vida de quem nos cerca, e quanto temos nos tornado tropeços de más escolhas para quem cruza nosso caminho?  

Enfim, somos pacotes-bombas ou pacotes de presentes para quem compartilha conosco sua existência? 

 

EmmyLibra

Aug 13, 2020 - 4:50 p.m.

Wednesday, August 05, 2020

Leme

Dias iguais
Depois de noites iguais
Vida que segue
Pra onde?
Não sei.

Quero pôr de volta
A minha mão
No leme.

EmmyLibra
Aug 5, 2020 - 8:27 a.m.