Monday, March 31, 2014

Rebanho

Vejo hoje em dia muitos "cidadãos" que, na verdade não passam de reses de um rebanho cego, sem opinião embasada, que ontem batia panelas nas ruas, hoje segue algum movimento mais barulhento, amanhã outro... sem rumo, sem saber por que está seguindo, por puro modismo! 

Não há convicção, não há integridade – e é bom lembrar que para cobrar integridade dos políticos é preciso também tê-la em nossos atos! – não há verdadeira cidadania, na raiz da palavra. Por isso me refiro a "cidadãos", usando aspas. Porque é fácil bater panelas, mas é difícil, no dia-a-dia, ser honesto para ter moral de cobrar honestidade de quem nos governa. É fácil gritar "jargões self-service", mas é difícil ponderar sobre o voto que vai depositar nas urnas. É fácil parecer cidadão, mas há uma distância enorme entre essa máscara de pessoa engajada e correta e o que podemos chamar de verdadeira participação política.

Aí, vem copa do mundo, e já sabemos: futebol leva a cervejada, que leva a festa, que leva a alegriazinhas fugazes... E quando chegarem as eleições, o povo ainda nem se curou da bebedeira, vai lá querer pensar em política? Vota de qualquer jeito, "nas coxas", seguindo qualquer pesquisa de opinião que for divulgada, sem vontade de mudar as coisas.

Quer saber? Deve estar muito bom! Enquanto houver futebol e cerveja, a massa vai empurrando a cidadania com a barriga, e quando alguém questionar isso, é só sair às ruas, batendo panelas com os jargões da moda, que tudo fica lindo e todos viram "patriotas" novamente.

E no domingo, é só dizer "Amém, irmãos!" numa igreja qualquer, e "todos os pecados estarão lavados"... inclusive o da cômoda omissão, da qual muitos morrem todos os dias nos becos e vielas do nosso país.

EmmyLibra
Mar 31, 2014 - 3:31p.m.


Saturday, March 15, 2014

Efêmero

Sob estrelas lânguidas
De brilho pálido
Amores frívolos
Se anunciam

Olhares ávidos
E passos trôpegos
Suspiros sôfregos
– Uma euforia!

Um vento tépido
Sussurros lúbricos
Palavras mágicas
Um despertar

O rosto cálido
As mãos tão gélidas!
Desejos súbitos
De se entregar

Contatos físicos
– Bem mais que físicos!
O corpo em êxtase
Quase um torpor!

O peito em música
A boca úmida
Momento único
A vida em flor

Mas, já por último,
O dia próximo
Fala de um tétrico
Alvorecer

O que era próspero
Se mostra efêmero
Se vai tão rápido
Que faz doer...

O ar hiálico
O sol a píncaro
Alma em desânimo
Preenche o ser       

E o que era lírico
Se torna lúgubre
Se esvai em célere
Entardecer

EmmyLibra
Mar 14, 2014 – 11:09 a. m.




Monday, November 25, 2013

Basta!


Estou farta da vida comedida, dos limites, portas, regras.  Me falta a aventura, o sal das incertezas, o nonsense e o abstrato.  
Faltam as montanhas, os desertos, os mares profundos — Falta profundeza!
Faltam cores escuras se misturando com as claras.  Faltam os carmins cheios das mágicas e arrebatadoras paixões que nos fazem cometer loucuras.  Falta o desejo de um beijo que me roube o fôlego e em cuja saliva eu me queira afogar.
Estou cansada da rotina segura e previsível, de tudo o que é morno e calmo, do tédio, da estabilidade irritante e da estagnação mortal.
Quero vida correndo em minhas veias, ao invés de sangue!  
Quero o descomprometimento da loucura e a força natural dos bichos.  Quero o poder criador e destruidor da natureza em meu ventre, para morrer na exaustão de cada dia e renascer ao canto mágico dos pássaros.
Quero a sofreguidão; o açoite do vento no meu corpo nu.
Quero o imoral habitando meu seio e o despudor de um beijo roubado habitando meu sonho.
Tenho saudades de um tempo em que eu gostava de voltar pra casa... Mas é como ter saudades do que nunca tive.
Preciso afrouxar os nós, descalçar os sapatos, me lançar num abismo.  Preciso arrancar minhas raízes e abrir as asas de minh’alma para voar sobre minhas angústias — Quero ter alma de pássaro!
Prefiro um milhão de culpas doces que justifiquem minha viagem ao inferno!  Porque é vergonhoso ser condenado por cometer pequenos erros e pagar o alto preço do remorso por uma vida não vivida.
Se na urgência de existir que sinto agora eu não encontrar meu coração, que se perdeu em nuvens de tempestade, sei que morrerei — não de tristeza, que ainda seria doce! —, mas, pura e simplesmente por falta de vontade de viver.

EmmyLibra
‎April 26‎, 2008 - ‏‎10:26pm


Sunday, September 15, 2013

Vida Eterna


A pergunta foi direta, a resposta foi claríssima:


“E eis que se levantou certo doutor da lei e, para o experimentar, disse: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?
Respondeu-lhe ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
Tornou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?
Jesus, prosseguindo, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.  Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. 
Disse-lhe, pois, Jesus: Vai, e faze tu o mesmo.”

Lucas 10:25-37


Então...  Alguém ainda pode ter a cara de pau de dizer que “basta crer”?!
A resposta de Jesus, em NENHUM MOMENTO dizia que basta crer!  Se não AGIRMOS na demonstração do Amor ao próximo, a fé é infrutífera.
Não é “crer” em Deus, mas AMAR a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si.  Não sou eu quem está dizendo! Esta foi a resposta clara e direta de Jesus, diante da pergunta igualmente clara e direta que lhe foi feita: “Que farei para herdar a vida eterna?”
Um detalhe importantíssimo:  Amar não é verbo passivo e inútil, segundo Ele, mas, ao contrário, é verbo ativo e produtivo:  limpar feridas, alimentar, vestir, cuidar. 
Estamos mesmo preparados, cheios dessa generosidade, somos mesmo tão capazes desse Amor produtivo, para MERECERMOS vida eterna?
Eu não sou.  Sem falsa modéstia, sem drama, sem falsa humildade.  Eu não sou.  Estou até beeeeem longe dessa tal vida eterna que tantos vivem buscando e VENDENDO nos púlpitos! 
Mas, ao contrário de muitos, não me iludo pensando que só a minha fé em Deus supre o necessário para merecê-la, nem pagamentos, nem cultos, nem rituais, nem palavreado bonito, nem mesmo preces...
Jesus não teria mentido, nem teria aumentado ou diminuído as coisas na hora de falar.  Ele disse tudo na justa medida do correto.  Ele, definitivamente, não seria irresponsável, passando para as pessoas ali presentes uma fórmula falsa de salvação!  Não ensinaria o caminho errado para que fosse seguido, nem mencionaria estas coisas, se elas não fossem o verdadeiro meio de alcançar a vida eterna. 
Portanto, a ideia de que a fé é suficiente é errônea, ilusória.
A única certeza que tenho, depois de ler o trecho supracitado, é que não estou entre os que passaram sobre a Terra, até os dias de hoje, que pareçam ter compreendido e sobretudo PRATICADO o amor ao próximo, conforme Jesus esperava que fôssemos capazes de fazer.  Definitivamente, eu não estou.
Mas, se há alguém que tenha presunção suficiente pra dizer que está, que me atire a primeira pedra!


EmmyLibra
Sep 15, 2013 – 8:21 p.m.



Sunday, September 01, 2013

Breves...

Minhas tristezas, alegrias, raivas, ódios, temores, coragens, medos, frios e calores duram menos do que o bater do coração de um colibri.
São breves demais e alternam-se tão avidamente dentro de mim, que me confundem. 
Nem sempre sei o que estou sentindo, porque quando penso que entendi, é o instante seguinte, e já sinto outras coisas... 
Só os amores que nascem já não morrem mais.  Por mais que eu precise que eles não estejam mais morando em mim, eles não se vão. E me acumulam tanto, que me fazem sentir ânsia de viver, multiplicando minha existência.

EmmyLibra
Sep 1st, 2013 - 10:06 p.m.


Saturday, August 17, 2013

Seu olhar

Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me fala de coisas lindas que nunca vi, 
Me fala de sonhos que nem ousei sonhar... 

Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me conta histórias de um tempo perdido 
Entre o espaço e o medo, 
Entre o desejo e a dor... 

Ah! Esse seu olhar...

EmmyLibra
Aug 17, 2013 - 8:57 p.m.

Tuesday, August 06, 2013

...


Pobres de nós, seres humanos, 
que precisamos ter mais 
do que nossos ombros 
podem carregar!


EmmyLibra
Data incerta



Duelo

Felizes aqueles que em tenra idade despedem-se da vida.  Esses não sentiram a angústia de serem disputados a ferro e a fogo por dois cavaleiros de armaduras reluzentes: o desejo e o temor.

A esses dois cavaleiros muitos dão diferentes nomes, como: mal e bem, id e superego, coração e razão.  E entre eles, nossa pequena alma se encolhe, à espera de que seu duelo um dia termine, para que haja novamente paz e silêncio dentro de nós.

Aqueles que da vida se afastam antes de ouvirem o tilintar das espadas desses dois bravos lutadores sobre suas cabeças são os verdadeiros felizes da Terra! Talvez por isso Jesus certa feita tenha dito que o reino divino pertencia a quem se lhes assemelhasse.  Porque, uma vez conhecidos por nós esses cavaleiros, nunca mais sentiremos a calmaria da inocência dentro do peito.  E o reino divino é, antes de tudo, reflexo de nossa paz interior.  Enquanto ela não se faz, o inferno está estabelecido em nossas entranhas, como um fogo inextinguível.  

EmmyLibra
Aug 6, 2013 - 2:35 p.m.


Monday, August 05, 2013

Aprendi...

Aprendi que...

I

Casamento não é sociedade.  Não é negócio. Não pode ser tratado como tal. 
A partir do momento em que um casal briga por questões financeiras, levando a discussão a influenciar sua relação pessoal, ou seja, a arranhar o que chamam de "amor", então já não há mais um casamento.  Há, sem que percebam, uma relação de prostituição.  
Ao fazer com que o dinheiro que circula na manutenção da vida a dois se torne centro de suas atenções e motivo de suas discórdias, estão dizendo, um ao outro, que esse é o sangue que corre nas veias da família.
Alguém já está se vendendo – e nem percebe!
Não transforme seu casamento numa negociata na qual quem ganha mais manda. A partir do momento em que alguém manda em alguém, isso por si só já desconfigura o que podemos chamar de casamento. E a partir do momento em que alguém se submete por valores financeiros, isso por si só já se pode chamar de prostituição.
Como profissão, a prostituição é válida. Não estou aqui a censurá-la ou a quem a pratica. O que quero dizer é que a pessoa que faz dela uma escolha de vida deve estar consciente do que isso representa, inclusive no que tange à recriminação que ainda impera sobre a profissão. Mas quem lhe compra como um serviço prestado precisa estar também consciente do que está pagando e do que espera receber, como em qualquer negócio. Para que, além da recriminação preconceituosa advinda de fatores culturais, religiosos e morais, não recaia sobre quem se vende a culpa real de uma negociação escusa, desonesta, imoral. 
O casamento, portanto, precisa estabelecer para o dinheiro seu devido valor e importância, deixando-o a cargo de manter as necessidades materiais da família.  Não se pode permitir que o amor seja trocado por moeda, ou teremos que considerar para essa relação outra nomenclatura, que não a de conjugal.


EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.




II

Casamento não é moleta. Não é escora, tipoia, bengala.
O outro não pode ser visto como "nossa metade", porque casamento não pode ser feito por duas pessoas pela metade!
As pessoas precisam estar (ser) inteiras numa relação, para que seja uma relação saudável. Não podem colocar sobre os ombros do outro a responsabilidade por sua felicidade.  O outro pode ser co-responsável, colaborador da sua felicidade, mas não tem, em absoluto, nenhuma obrigação de ser a razão dela.  É injusto sobrecarregar alguém com esse dever, porque cabe a cada um de nós buscar em nossa própria essência, motivos para sorrir e para ser feliz.  Ao dependermos do outro para isso, o que será de nós se o outro se for para sempre?
Interdependência não é dependência!  É estar presente, fazer parte, interagir. É co-autoria, é co-participação, cooperação.  Não se pode confundir interdepender com depender, porque este segundo nada mais é do que ser carregado nos ombros do outro!
O casamento precisa de equilíbrio. Quando as duas partes caminham juntas, de mãos dadas, plantando felicidade ao longo do caminho, ambos se auxiliarão e se apoiarão quando necessário.  Mas se um caminha levando o outro sobre os ombros, sem descanso, dia chegará que estará cansado demais, e se sentirá velho e exausto, caindo à margem do caminho que traçaram, sem nunca ter sentido o perfume das flores, porque jamais teve os braços livres para semear do seu lado da estrada.
Alguém vai sair perdendo nessa história!
Pessoas que se amam, verdadeiramente, não se permitem ser estorvo para o outro.  Se cai em doença ou impossibilidade, o amor do outro lhe dá forças e pernas, lhe apoiando. É diferente!  A necessidade material de ajuda não tem nenhuma relação com a necessidade psíquica. A primeira vem de fatalidades e requer cuidados reais. A segunda vem de fantasias e enganos, e só causa fadiga e empobrecimento na outra parte.  É injusta, desonesta!
Caminhar pelos próprios pés, sem sobrecarregar o outro, é sinal de maturidade.  Não se pode pensar que o casamento se mantém das ilusões de que o outro, por amor, sempre nos carregará no colo, porque um dia o outro cansa-se (de nós?!) e cairemos, ambos, sem chegar a lugar nenhum.


EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.


Friday, June 14, 2013

Eu só queria
não desejar tanto...

EmmyLibra

Jun 14, 2013 - 8;55 a.m.

Tuesday, June 11, 2013

Uno

Quando – e somente quando – a humanidade não precisar mais da existência de psicólogos, então poderá afirmar que está em condições de COMEÇAR a ter consciência religiosa verdadeira. 
Por enquanto, o que temos é uma dependência do sobrenatural para suportar nossas frustrações e para nos apoiar, como aleijados, usando a ilusão de que as forças que vêm das divindades nos possam suspender do chão, quando este nos parece muito cheio de cascalhos causticantes.
A experiência da comunhão verdadeira e efetiva com Deus, a partir de então, passará a ser vista não como um amuleto que nos proteja ou como um alimento que nos sacie – nos sirva –, mas como uma energia que flui, dinamicamente, dEle para nós e de nós para Ele, incessantemente, perenemente.
Religião ainda tem conotação muito próxima de suporte para pendurarmos nossas angústias e anseios. Também serve para exercitarmos a falsa humildade de não assumirmos nossos sucessos, pela ilusão de que, assumindo-os, nos tornaríamos menos dignos.  
Dia chegará em que religião será apenas um conceito circunscrito ao passado das palavras e sentidos materiais humanos. Não haverá mais a necessidade dela, porque seremos em Deus e Ele em nós, como algo íntimo, indissociável, uno. Seremos, enfim, o que Ele talvez espere de nós, desde a nossa criação.


EmmyLibra
Jun 11, 2013 - 12:03 p.m.

Monday, June 10, 2013

Sem estrelas

Um cego de nascença não sente saudades daquilo que nunca viu. 
Até que um dia, por uma mágica qualquer, ele sonha com uma noite de verão, sem nuvens, sem lua, com o céu coalhado de estrelas.  E ele pode ver, nesse sonho, toda a beleza e imensidão do universo, com pedras preciosas cintilando sobre o pano escuro da noite.
Ao acordar, na escuridão da sua cegueira [sem estrelas ao fundo], ele já não é mais o mesmo. E, deste momento em diante, sente saudades do que viu no sonho.  Sente saudades do milagre de ver, de sentir.
Assim aconteceu comigo: eu era uma, antes de ver o pano escuro da noite salpicado de luzes coloridas, e me tornei outra, ao despertar do sonho. Sou outra. Incompleta, sôfrega, vazia, nostálgica. Perdida no vazio de uma cegueira em que eu nem sabia que vivia, e que era antes o meu abrigo seguro.
Sinto a escuridão tomar conta do meu olhar, tão distante do milagre de ver as luzes coloridas que antes eu ignorava...

– Para que o milagre de ver, então, numa contemplação tão breve daquele límpido céu de verão, com pedras preciosas derramadas sobre o pano escuro da noite?

Melhor seria continuar sem saber das estrelas...


EmmyLibra
Jun 10, 2013 - 3:30 p.m.


Sunday, June 09, 2013

Rosa-outono


Dá-me o beijo da tua boca rósea
E me sentirei saciada por uma vida inteira!

Mas sabe tu que minha vida findará
No seguinte instante em que descolares
Teus lábios róseos dos meus.

Findará, e em seu lugar surgirá uma nova vida:
Vazia, dolorosa, sofrida, reticente,
De longas esperas e angústias,
Na qual buscarei novamente o rosa-outono
E a umidade doce e morna
Da tua boca nua.

Mas morrerei de novo
E tantas vezes quantos forem teus abandonos,
Tuas partidas, 
Tuas recusas em pousares teus róseos lábios 
Nos meus.

Morrerei sempre que tuas ausências em mim
Dêem à minha existência
Os ares frios e os campos sem flores
Desse infindável outono
De viver sem ti.

EmmyLibra

Jun 9, 2013 – 9:30 a.m.

Saturday, June 01, 2013

Resposta do Severino ao mestre carpina*


[...] Como então dizer quem falo  / ora a Vossas Senhorias?  /  Vejamos: é o Severino  /  da Maria do Zacarias, /  lá da serra da Costela, /  limites da Paraíba.
[...] Mas isso ainda diz pouco: /  se ao menos mais cinco havia.
[...] E se somos Severinos  /  iguais em tudo na vida,  /  morremos de morte igual,  /  mesma morte severina:  /  que é a morte de que se morre /  de velhice antes dos trinta,  /  de emboscada antes dos vinte  / de fome um pouco por dia.
[...] 
— Seu José, mestre carpina,  /  que diferença faria  /  se em vez de continuar  /  tomasse a melhor saída:  /  a de saltar, numa noite,  /  fora da ponte e da vida?


(Trechos extraídos do livro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto)**



QUANDO SEVERINO, RETIRANTE, RESPONDE AO CARPINA 
SOBRE SUA DECISÃO DE VIVER OU DE MORRER*


Seu José, mestre carpina, se me permite dizer
Comecei minha jornada querendo esclarecer
E relatar quem eu sou, tentando me descrever.

Mas eram tantos pormenores que me faziam quem era
Que desisti de um nome pra me mostrar em jornada
Pelos meus atos, meus sonhos, meus desenganos de vida
Minhas paradas, uns medos e solidões ressentidas.

Diante de mortes e vidas, severinas como a minha
Eu segui pelo caminho, ora pensando aqui dentro
Ora olhando para fora, ora me contradizendo
Convidando a quem quisesse saber de mim um bocado
Do que nem mesmo eu sabia, e aprendi nesses passos.

Como Vossa Senhoria me diz, com propriedade,
Ao longo do meu caminho a vida se mostrou teimosa
Não tenho ainda certezas se vale a pena viver.
Mas vivo o momento de agora, esse da nossa prosa
E sei que essa mesma força que me sustenta hoje
E me trouxe do sertão pro litoral, pra cidade
É a que move essa vida, não me deixa enlouquecer.

É essa vida torta, essa vida severina
Dolorosa, tão difícil e esturricada de seca
Que me mostrou minha sina de ser também um teimoso
De não querer dessa ponte e dessa existência hoje
Pular para fora, me render, me sentir assim medroso.

Prefiro a dor, cada dia, a fome e o estar só
Do que descobrir que não sou quem tentei dizer que era
Do que perder de mim mesmo o nome e capacidade
De entender de mim mesmo, de ter uma identidade.

Mesmo sendo um caminhante, mesmo me confundindo
Com tantos outros que passam por mim ao longo da vida
Tantos outros severinos, em dores, em sina, e em lida,
Essa ponte e essa vida não mais me verão pular
Mais vale seguir sofrendo, mas sonhando e existindo
Do que pensar numa morte, severina como d’outros
Que, como eu, num momento de fome e de desespero
Desistiram de viver, de continuar seu caminho.

Mais vale ser um teimoso, agarrado ao fio da vida
Do que ser mais um na cova, rasa, sob medida
Mais vale ser severino de sina, de dor e de lida
Do que abrir mão dos meus sonhos, que é de não precisar
Tantos nomes e lugares, coisas a explicar
Pra dizer quem eu sou – e a dúvida se afasta!
Sou apenas Severino: este que aqui me apresento.
E Vossa Mercê que ouve, desde o começo, atento
A mim me dirá que a vós, saber só isso já basta.


EmmyLibra
May 28, 2013 - ± 3:00 p.m.


* Post criado a partir de atividade proposta pela professora Andréa Moreira (amo!!), na disciplina Psicologia Social (amo também!!), na qual deveríamos criar um novo final para o poema, a partir dos conceitos de Identidade vistos em sala de aula. Tomei, então, a liberdade de tentar escrever continuando o estilo. Nem de longe consegui dar sequência ao brilhante trabalho do João Cabral, claro! Mas fica o texto como recordação da aula e como homenagem ao escritor, que admiro profundamente.
O texto original fala muito de coisas que conheço bem: também migrei muitas vezes, embora em condições bem diferentes e mais fáceis, mas com a mesma velha conotação de abandonar referências para buscar-se em outras novas e desconhecidas...  E hoje, se tenho um pouso, se tenho um lugar onde quero estar, foi por ter tido a oportunidade de experimentar diferentes espaços e conhecer pessoas que agora fazem parte da minha vida de modo positivo, para que meu hoje-aqui valha a pena.  Andréa Moreira é uma delas.  =) 

** A quem interessar a leitura do texto original, do João Cabral de Melo Neto, está disponível na íntegra em  http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf 
Eu recomendo!  ;)




Wednesday, May 15, 2013

Identidade


"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
                                                                     (Raul Seixas)


Eu sou a que está aqui, agora, escrevendo estas palavras, sentada numa cadeira e respirando o ar desta sala onde me encontro.
Daqui a pouco já não mais serei a mesma, porque até o que vem de dentro de mim – como as palavras de agora – é capaz de me modificar e me fazer uma pessoa inteiramente nova, uma outra – que também sou – e que continua a primeira, a do início, ou que se sobrepõe a ela.
Sou o instante presente de mim mesma. Sou alguém que resultou dos instantes anteriores meus, de outros e dos muitos ondes em que já habitei. E não mais serei esta no meu instante seguinte, por também habitarem neste meu instante de agora outras pessoas e muitos ondes, inclusive os que estão – ou são – ausentes deste meu ser no espaço-tempo presente, e que terminará a escrita em mais algumas poucas palavras.
Ao terminar a escrita, portanto, eu nem mesmo sou aquel'outra que começou a fala, e que morava naquele "eu" que tentava dizer-se, verbalizar-se, identificar-se na própria experiência de ser...


EmmyLibra
May 15, 2013 - 9:15 a.m.



Falar de identidade não é falar do que se é, mas de um "estar" tão breve e ao mesmo tempo tão intenso, que cabe num efêmero instante de pensar, mas não cabe dentro de si mesmo... 
                                                                                                                               (Added: May 15, 2013 - 10:29 p.m.)


Saturday, April 06, 2013

='(


=(
Meus dias não têm sido fáceis.
Se ao menos pudesse abraçar você ao final de cada um deles...
Toda a dor desapareceria por um instante insano e surreal e eu poderia sentir a eternidade de viver, condensada neste breve momento em que a sua mágica presença estivesse ao alcance dos meus sentidos...
Ainda sinto tanto a sua falta...
=(

EmmyLibra
Apr 6, 2013 - 11:56 p.m.

Monday, March 25, 2013

Sobre o tempo


Estou envelhecendo.
Às vezes isso me incomoda, às vezes isso me alegra.
De um jeito ou de outro, o tempo não se importa. O tempo não se importa mesmo com o que penso. Se estou feliz ou chateada com seu passar, isso não o faz parar.
Então, a vida vai me dando presentes junto com as rugas: vai me dando saberes, enquanto leva embora alguns itens da minha juventude; vai deixando liberdades, a despeito de raptar alguns sonhos fúteis...
Assim é envelhecer, para mim.
Assim é ficar chateada e admitir que a flacidez que se faz em meu corpo, antes cheio de vigor, me incomoda. Mas é, sobretudo, admitir que hoje sou alguém que, 
cada dia mais, vale  a pena ser, que vale mais a pena amar a cada instante, a cada passo. 
E me amo. Com todas as rugas e com a subtração contínua dos dias, meses ou anos que me restam.
Aliás, amo-me justamente por todos esses detalhes do envelhecer!


EmmyLibra
Mar 24, 2013 - 11 p.m.



Friday, March 08, 2013

Sob o viaduto


Grafite sob viaduto Santa Efigênia, em Belo Horizonte: autor desconhecido.* 



Um menino dorme sob o viaduto

Carros passam sobre o viaduto
Sobre seu corpo

Pessoas passam sobre o viaduto
Pisando o viaduto
Pisando seu corpo

Passos apressados, desleixados
Despreocupados do menino que dorme

Passos pesados, densos, com saltos de agulha
A pisar sobre o menino
Indiferentes ao menino em seu sono.

O menino talvez ignore
Os saltos dos sapatos que lhe esmagam
Os carros que lhe atropelam
O desleixo dos passos apressados
A indiferença dos homens e mulheres
Que passam sobre o viaduto – sobre ele próprio
Em seus carros, em seus saltos de sapato.

Quem passa sobre o viaduto
Muitas vezes diz não saber
Que sob seus passos pesados, estirado sob o concreto
Jaz um menino, como sepultado em sono
Como sepultado em vida.

Os transeuntes sobre o viaduto e o menino que dorme:
Quem sabe menos de vida – ou de morte?
Quem pode dizer que desconhece pisar
Ou ser pisado?

EmmyLibra
Oct 9, 2012 – 7:45 a.m. 


* Desconheço o autor do grafite que aparece na foto de ilustração do post. Se alguém o identificar, peço a gentileza de deixar esta informação nos comentários, para que eu coloque os créditos devidos da imagem.



Tuesday, March 05, 2013

Felicidade em flor

Sinto agora um lampejo de felicidade, desses a que damos o simplório nome de alegria.
Não que eu não seja feliz.  Eu sou.  E isso é perene.  Não é ao que me refiro agora.
Refiro-me a esses momentos em que a felicidade acontece como um pequeno redemoinho, desgrenhando nossos cabelos e jogando poeira de estrelas sobre os nossos olhos. Todo o resto fica ofuscado, tudo some da nossa visão, porque aquele breve instante basta-se a si. E daí por diante fica em nós, é parte de nós.  Mas não o é, simplesmente, como lembrança de um estar alegre ou como passado contido na exatidão do instante dessa breve alegria.  É mais como sensação que impregna-se à nossa alma do que pura reminiscência, e nos faz rir sem razão aparente, respirar um pouco mais fundo, desejar a vida um pouco mais do que no seu momento prévio.
Ela voltou. Voltou a brotar, renasceu.
Minha flor, com suas perfumadas pétalas, estava ali, quase ao alcance das minhas mãos... 
Por um instante a vi, molhada de orvalho, em meu jardim.  Era minha, outra vez, ao menos num sonho.  E transformava tudo à sua volta, exalando um cheiro que se misturava ao ar, preenchendo os espaços vazios da minha vida.
Estava ali.  Por um breve instante de alegria, por um lampejo de felicidade. Não da felicidade raiz, essa perene, que já é o que sou, fibra de que me componho. Estava contida num instante de uma felicidadezinha de redemoinho, e me despenteou e lançou poeira de estrelas nos meus olhos, para que eu pudesse ver o mundo um pouco mais colorido e luminoso do que no seu instante prévio.
Estrelas em pó sobre meus olhos e pálpebras, cabelos desgrenhados, liberdade e sonho misturando-se em mim, para o meu dia de hoje e para o riso frouxo e sem propósito. Para uma felicidadezinha a mais.
Eu quase pude tocá-la – felicidade em flor.  
Se o tivesse feito, agora também teria perfume em minhas mãos, além de estrelas em pó a iluminar meu dia...


EmmyLibra
March 5, 2013 - 10:00 a.m.

Sunday, February 10, 2013

Tijolinhos e argamassinha



"Então Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores." (Mateus 21:12-13)


É disso que eu falo, quando critico a venda de tijolinhos, amuletos, óleos, sal de cozinha, água benta, terços, castiçais de 7 pontas, travesseirinhos milagrosos... E também quando as pessoas, em massa, são "docemente" persuadidas a doar tudo o que têm às igrejas (leia-se "aos líderes religiosos"). 
Os palácios que se erguem nas cidades estão longe de serem casas de orações. Nas últimas vezes em que fui a esses lugares (fui a diversos deles, na esperança de encontrar ao menos um em que ainda valesse a pena frequentar), passa-se 45% do tempo falando do diabo, 50% do tempo pedindo dinheiro ou vendendo coisas, 5% do tempo cantando e  falando de Deus (diga-se de passagem, falando abobrinhas a respeito de Deus!)... Sem contar os bazares que são feitos na porta, as lanchonetes que funcionam DENTRO dos templos, os consórcios e outros bens que são vendidos o tempo inteiro pelos "obreiros", para ajuntar mais e mais riquezas para que palácios cada vez maiores sejam erguidos... Para Deus?  Não! Infelizmente, não para Deus, mas para ostentação e marketing.
Tenho me perguntado: "O que será que Jesus pensa disso tudo? Será que ele não faria o mesmo que fez com os negociantes do templo, narrado em Mateus 21:12-13?"... E isso me preocupa muito.  Porque o grande objetivo desses líderes não é – definitivamente não é – a alma de ninguém, mas o seu bolso, sua carteira, o que eles podem espremer das pessoas.  Se a preocupação fosse a alma de alguém, eles estariam menos envolvidos em pedofilia, escândalos políticos e financeiros, e passariam todo o tempo falando das boas obras de Jesus e das suas promessas de Vida, ao invés de ficarem tentando incutir medos nas pessoas ou vender para elas tanta porcaria! Falariam mais em prosperidade ESPIRITUAL e jamais enalteceriam a prosperidade material como sendo um requisito para se reconhecer alguém "abençoado". Eles estariam dizendo pra seus seguidores que a PRÁTICA DO BEM é o único caminho para quem quer seguir o Evangelho  de Jesus e encontrar a Deus, porque "a fé sem obras é morta". 
Se alguém me diz, por exemplo, que lavar as mãos antes das refeições me protege de doenças, e eu simplesmente CREIO/ACREDITO/CONFIO na pessoa que me disse, isso não resolve nada, nem me protege de contaminações, a menos que eu FAÇA o que ela está me dizendo. Se eu não LAVAR AS MÃOS, estarei contaminada, não importa quanto eu acredite ou confie nessa pessoa! 
Então, só CRER é INÚTIL, se não PRATICARMOS o que Jesus nos ensinou e nos exemplificou durante sua estada entre nós. 
E me decepciona ver pessoas inteligentes caindo nessas conversas, achando que Deus está aceitando dinheiro ou cartão de crédito em troca de construir a felicidade de qualquer pessoa.  =(  
Fui questionada que as pessoas não são OBRIGADAS a pagar. Sei que ninguém é obrigado a nada. Realmente não é.  Mas, sinceramente, antes fosse!! Porque é justamente aí que mora o problema:  quando as pessoas são obrigadas a entregar o que é seu, elas percebem o assalto e se defendem; mas quando as coisas são colocadas por meio de persuasão, com palavras doces, com meiguice e com argumentos sentimentalistas (a isso tudo dá-se o nome de PNL - Programação NeuroLinguística), elas entregam de bom grado, como se não estivessem sendo forçadas, então não percebem quanto estão sendo manipuladas. 
Isso é crime!  Manipular pessoas é crime!  É hediondo, é sórdido, é perverso, é abominável!!
A mídia faz isso todos os dias com muita gente.  Os políticos fazem isso o tempo todo, também.  Por que somos tão críticos em relação à mídia e aos políticos, mas somos tão condescendentes com os líderes religiosos sem escrúpulos?  Por que achamos que eles estão certos e são inquestionáveis, só porque USAM O NOME DE DEUS??
Precisamos acordar!  Precisamos começar a questionar as coisas que engolimos, não emprenharmos pelos ouvidos, cegos, entorpecidos, embriagados pelos discursos lindos... 
Foram discursos lindos os de Hitler também, lembram?  Mas, por que hoje eles são vistos como perversos, se na época eram tão convincentes, tão emocionantes, tão envolventes? Eram verdadeiras obras de arte! Ele era um artista! Tinha mágicas palavras, que arrebanhavam multidões! As pessoas, a princípio, não eram obrigadas a nada, não eram forçadas a segui-lo e a venerá-lo. Faziam-no porque ele as convencia de que o que dizia era razoável, lindo, e as remetia a patriotismo, não a crueldades. E elas os seguiam, como cordeirinhos seguem a voz do seu pastor...
Hoje sabemos que era perverso em suas ações,  em suas intenções. 
Pode parecer grotesca a comparação, mas o que eu quero dizer é que se um belo discurso pode levar as pessoas a crimes, quanto mais a entregarem seus bens!  Imagina que um homem só conseguiu levar milhares de pessoas a cometerem atrocidades, o que  um bando de pastores não é capaz de fazer, para convencer as pessoas a entregarem passivamente seus bens, certas de que assim estão conquistando um pedacinho do céu?
Os padres, antigamente, vendiam "lotes" no paraíso, bênçãos, unções; hoje ainda vendem os sacramentos da Igreja Católica. Foram severamente criticados no passado por Lutero e outros religiosos, por essas e outras práticas do catolicismo, até que houve a separação da igreja, criando-se o protestantismo. 
Até os dias de hoje, pastores criticam os padres por essas e outras coisas.  
Mas, o que fazem para terem moral suficiente para essas críticas, como tinham os primeiros protestantes?  
Eu respondo:  Fazem EXATAMENTE O MESMO!  Vendem tudo!  Inclusive felicidade.  É pra isso, aliás, que o pastor está vendendo tijolinhos e já avisou que depois vai vender "argamassinha, para assentar os tijolinhos"!  
Gente, isso é absurdo demais!
Lutero deve estar revirando no túmulo, diante do que fizeram da sua Igreja... 
=(
Mas, quer saber?  Chega de falar disso... Já rendeu demais!

EmmyLibra
Feb 10, 2013 - 9:20p.m.