Sunday, June 08, 2014

Parêntesis

Eu gostaria de poder viver de arte! – acho que é a undécima milésima vez que digo isso nos últimos dez dias!

A arte tem sempre uma surpresa, algo fora do comum, onde podemos viver do novo, constantemente!

Estou farta da rotina, dos compromissos, das prestações de contas, dos julgamentos alheios, dos desejos alheios a controlarem os meus...

Tem momentos que parece que o mundo emborca sobre mim! Tudo urge, tudo me chama, tudo me arrasta!

Nessas horas eu preciso abrir um parêntesis na vida. Paro tudo, abandono compromissos, desligo o celular, entro no Parque Municipal e fico lá, sentada ao lado de uma nascente, só ouvindo o barulhinho da água. 



O mundo pode estar louco lá fora, mas sempre encontro naquela fonte de águas cristalinas um refúgio, para onde eu vou quando quero me libertar do stress. 

Fico desconectada de tudo por umas duas horas. E quando saio de lá, a vida continua a mesma, com os mesmos velhos problemas, o mesmo trânsito insuportavelmente congestionado, a urgência das coisas... Mas – que bom!– ninguém morreu porque estive fora por duas horas! 

O mundo não se acabou, nenhuma bomba atômica destruiu a humanidade, ninguém ficou mais rico nem mais pobre, nem mais louco nem mais são porque me ausentei. 

Quanto a mim... Ah! Eu não sou mais a mesma de duas horas antes!

Sinto-me como se fosse um pouco mais "dona" de mim mesma, menos sujeita às decisões, horários e agendas dos outros, menos sufocada. É como dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?"

Mas tudo isso é ridículo e você é muito boba! – você há de dizer.  Porque eu continuo escrava das agendas dos outros, do ritmo alucinado da vida urbana, dos compromissos inadiáveis... Basta sair daquele parêntesis e tudo volta a ser como antes.

Mas a sensação de leveza que experimento por duas horas me ajuda a conservar minha identidade, em meio ao caos. Me ajuda a repor energias para suportar a mesmice, a rotina, os deveres, os mil diferentes conflitos que há dentro de mim, quando vejo o mundo inteirinho à minha volta como se estivesse sempre prestes a ruir, pela fragilidade dos laços com que as pessoas atam suas vidas, hoje em dia.

São duas horas de um parêntesis que me permito abrir.  E dentro desse parêntesis não cabem celulares, compromissos, medos, anseios, dores, sofrimentos, inquietações. 

Dentro desse parêntesis não cabe mais nada além de mim mesma, do som da água da fonte caindo sobre as pedras, alguns peixinhos me cumprimentando, de vez em quando... E também  a paz – imensa, morna e acolhedora paz! – e o silêncio que cultivo dentro de mim, nesse instante, quando calo até meus pensamentos, só para ouvir aquele barulhinho suave da água nas pedras. 

Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior, mergulhados em meu parêntesis sagrado, em meio a um parque que está encrustado no coração do caos, numa das maiores cidades deste país!

Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio inerior. Um silêncio quase mortal, mas no qual reabasteço-me de mim mesma, reconheço minha real identidade: aquela que, para imergir no social, travisto de mil diferentes papéis, mas que não são o que sou ou, pelo menos, não são tudo o que sou.

Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior. Por duas sagradas horas eu me encontro comigo mesma e me permito ficar ali, isolada da vida que urge e me arrasta.  A salvo do caos, por duas horas. A salvo de tudo que fere minha condição de humanidade e que me condena a uma vida em que até nossas escolhas são moldadas pelo que nos é exterior, e não pelos nossos reais desejos. 

Eu gostaria de viver de arte... Mas minhas escolhas foram moldadas dentro do possível, dentro dos encaixes dos desejos alheios, dos espaços que minha história pessoal circunscreveu para a morada da minha alma.

Então, por duas horas apenas, escolho viver dentro de um parêntesis sagrado... 

Às vezes, preciso dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?".  E ser dona de mim.  Nem que seja por duas horas apenas. 

Já que por aqui não se consegue viver de arte e "ser" está condicionado aos espaços que nossa história pessoal circunscreve para nós...



EmmyLibra

Jun 8, 2014 - 3:09 p.m.

Friday, May 16, 2014

Tua grandeza

Sinto falta do tempo em que eu te bebia. 
Bebia teu conteúdo, tuas ideias, teus saberes.
Bebia tua genialidade, diluída em palavras e gestos.

Era muito bom sentir o teu gosto em minha saliva!
Alimentava-me.  Fazia-me sentir como se um dia, de tanto beber o que eras, eu pudesse, enfim, reter em mim um pouco de ti — ao menos o suficiente para fazer parte do teu mundo, de algum modo, embora certa de que jamais conseguiria ser tão grande quanto és, ter essa imensidão da tua alma inquieta.

Tua grandeza me encanta!
Estou apaixonada por ela...
— Dei-me permissão para estar!
Permiti ao meu coração amar-te, amar teu gosto.

E, sempre que for possível, voltarei a ti, como a uma fonte, para enganar a sede que me persegue: de saber, de conhecer, de conhecer-te;  de possuir em minha própria existência uma pequena porção do precioso material de que te constituis e cujo nome desconheço, mas que me sacia!

Conta-me, então: de que és feito, afinal?  
De dor?  De sonhos?  De Filosofia?
Não consigo saber, sem que me digas.
Só sei que te faz existir além do corpo.  Além, mesmo, do que chamam de alma!

És maior do que tua própria pele!
Nunca te apercebeste?
Eu percebi.  E senti. 
E tocar-te é como tocar o inefável!


EmmyLibra
May 16, 2014 – 10:57am



Wednesday, April 16, 2014

Prioridades

O mundo, as pessoas do mundo, as vontades das pessoas do mundo... tudo isso é geralmente tão pequeno, tão insignificante, perto do que sonhamos...

Somos, incontáveis vezes, cruéis e inescrupulosos, na busca de nossas satisfações pessoais – queremos e queremos. E não nos importa se passamos sobre os outros, pisando e machucando, para agarrarmos um melhor bocado do que desejamos.

Somos mestres em criar necessidades! Amarramos nossos pés a pesadas pedras de desejos irrealizáveis e arrastamos essas enormes rochas pelas curvas do nosso caminho.

Às vezes, alguém que está ao nosso lado deseja apenas um prato de comida ou um pedaço de pão... Mas nós queremos voar e achamos complicado saciar a fome do outro. 

É mais fácil comprar asas!

EmmyLibra
(Data incerta)

Monday, March 31, 2014

Rebanho

Vejo hoje em dia muitos "cidadãos" que, na verdade não passam de reses de um rebanho cego, sem opinião embasada, que ontem batia panelas nas ruas, hoje segue algum movimento mais barulhento, amanhã outro... sem rumo, sem saber por que está seguindo, por puro modismo! 

Não há convicção, não há integridade – e é bom lembrar que para cobrar integridade dos políticos é preciso também tê-la em nossos atos! – não há verdadeira cidadania, na raiz da palavra. Por isso me refiro a "cidadãos", usando aspas. Porque é fácil bater panelas, mas é difícil, no dia-a-dia, ser honesto para ter moral de cobrar honestidade de quem nos governa. É fácil gritar "jargões self-service", mas é difícil ponderar sobre o voto que vai depositar nas urnas. É fácil parecer cidadão, mas há uma distância enorme entre essa máscara de pessoa engajada e correta e o que podemos chamar de verdadeira participação política.

Aí, vem copa do mundo, e já sabemos: futebol leva a cervejada, que leva a festa, que leva a alegriazinhas fugazes... E quando chegarem as eleições, o povo ainda nem se curou da bebedeira, vai lá querer pensar em política? Vota de qualquer jeito, "nas coxas", seguindo qualquer pesquisa de opinião que for divulgada, sem vontade de mudar as coisas.

Quer saber? Deve estar muito bom! Enquanto houver futebol e cerveja, a massa vai empurrando a cidadania com a barriga, e quando alguém questionar isso, é só sair às ruas, batendo panelas com os jargões da moda, que tudo fica lindo e todos viram "patriotas" novamente.

E no domingo, é só dizer "Amém, irmãos!" numa igreja qualquer, e "todos os pecados estarão lavados"... inclusive o da cômoda omissão, da qual muitos morrem todos os dias nos becos e vielas do nosso país.

EmmyLibra
Mar 31, 2014 - 3:31p.m.


Saturday, March 15, 2014

Efêmero

Sob estrelas lânguidas
De brilho pálido
Amores frívolos
Se anunciam

Olhares ávidos
E passos trôpegos
Suspiros sôfregos
– Uma euforia!

Um vento tépido
Sussurros lúbricos
Palavras mágicas
Um despertar

O rosto cálido
As mãos tão gélidas!
Desejos súbitos
De se entregar

Contatos físicos
– Bem mais que físicos!
O corpo em êxtase
Quase um torpor!

O peito em música
A boca úmida
Momento único
A vida em flor

Mas, já por último,
O dia próximo
Fala de um tétrico
Alvorecer

O que era próspero
Se mostra efêmero
Se vai tão rápido
Que faz doer...

O ar hiálico
O sol a píncaro
Alma em desânimo
Preenche o ser       

E o que era lírico
Se torna lúgubre
Se esvai em célere
Entardecer

EmmyLibra
Mar 14, 2014 – 11:09 a. m.




Monday, November 25, 2013

Basta!


Estou farta da vida comedida, dos limites, portas, regras.  Me falta a aventura, o sal das incertezas, o nonsense e o abstrato.  
Faltam as montanhas, os desertos, os mares profundos — Falta profundeza!
Faltam cores escuras se misturando com as claras.  Faltam os carmins cheios das mágicas e arrebatadoras paixões que nos fazem cometer loucuras.  Falta o desejo de um beijo que me roube o fôlego e em cuja saliva eu me queira afogar.
Estou cansada da rotina segura e previsível, de tudo o que é morno e calmo, do tédio, da estabilidade irritante e da estagnação mortal.
Quero vida correndo em minhas veias, ao invés de sangue!  
Quero o descomprometimento da loucura e a força natural dos bichos.  Quero o poder criador e destruidor da natureza em meu ventre, para morrer na exaustão de cada dia e renascer ao canto mágico dos pássaros.
Quero a sofreguidão; o açoite do vento no meu corpo nu.
Quero o imoral habitando meu seio e o despudor de um beijo roubado habitando meu sonho.
Tenho saudades de um tempo em que eu gostava de voltar pra casa... Mas é como ter saudades do que nunca tive.
Preciso afrouxar os nós, descalçar os sapatos, me lançar num abismo.  Preciso arrancar minhas raízes e abrir as asas de minh’alma para voar sobre minhas angústias — Quero ter alma de pássaro!
Prefiro um milhão de culpas doces que justifiquem minha viagem ao inferno!  Porque é vergonhoso ser condenado por cometer pequenos erros e pagar o alto preço do remorso por uma vida não vivida.
Se na urgência de existir que sinto agora eu não encontrar meu coração, que se perdeu em nuvens de tempestade, sei que morrerei — não de tristeza, que ainda seria doce! —, mas, pura e simplesmente por falta de vontade de viver.

EmmyLibra
‎April 26‎, 2008 - ‏‎10:26pm


Sunday, September 15, 2013

Vida Eterna


A pergunta foi direta, a resposta foi claríssima:


“E eis que se levantou certo doutor da lei e, para o experimentar, disse: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?
Respondeu-lhe ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
Tornou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?
Jesus, prosseguindo, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.  Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. 
Disse-lhe, pois, Jesus: Vai, e faze tu o mesmo.”

Lucas 10:25-37


Então...  Alguém ainda pode ter a cara de pau de dizer que “basta crer”?!
A resposta de Jesus, em NENHUM MOMENTO dizia que basta crer!  Se não AGIRMOS na demonstração do Amor ao próximo, a fé é infrutífera.
Não é “crer” em Deus, mas AMAR a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si.  Não sou eu quem está dizendo! Esta foi a resposta clara e direta de Jesus, diante da pergunta igualmente clara e direta que lhe foi feita: “Que farei para herdar a vida eterna?”
Um detalhe importantíssimo:  Amar não é verbo passivo e inútil, segundo Ele, mas, ao contrário, é verbo ativo e produtivo:  limpar feridas, alimentar, vestir, cuidar. 
Estamos mesmo preparados, cheios dessa generosidade, somos mesmo tão capazes desse Amor produtivo, para MERECERMOS vida eterna?
Eu não sou.  Sem falsa modéstia, sem drama, sem falsa humildade.  Eu não sou.  Estou até beeeeem longe dessa tal vida eterna que tantos vivem buscando e VENDENDO nos púlpitos! 
Mas, ao contrário de muitos, não me iludo pensando que só a minha fé em Deus supre o necessário para merecê-la, nem pagamentos, nem cultos, nem rituais, nem palavreado bonito, nem mesmo preces...
Jesus não teria mentido, nem teria aumentado ou diminuído as coisas na hora de falar.  Ele disse tudo na justa medida do correto.  Ele, definitivamente, não seria irresponsável, passando para as pessoas ali presentes uma fórmula falsa de salvação!  Não ensinaria o caminho errado para que fosse seguido, nem mencionaria estas coisas, se elas não fossem o verdadeiro meio de alcançar a vida eterna. 
Portanto, a ideia de que a fé é suficiente é errônea, ilusória.
A única certeza que tenho, depois de ler o trecho supracitado, é que não estou entre os que passaram sobre a Terra, até os dias de hoje, que pareçam ter compreendido e sobretudo PRATICADO o amor ao próximo, conforme Jesus esperava que fôssemos capazes de fazer.  Definitivamente, eu não estou.
Mas, se há alguém que tenha presunção suficiente pra dizer que está, que me atire a primeira pedra!


EmmyLibra
Sep 15, 2013 – 8:21 p.m.



Sunday, September 01, 2013

Breves...

Minhas tristezas, alegrias, raivas, ódios, temores, coragens, medos, frios e calores duram menos do que o bater do coração de um colibri.
São breves demais e alternam-se tão avidamente dentro de mim, que me confundem. 
Nem sempre sei o que estou sentindo, porque quando penso que entendi, é o instante seguinte, e já sinto outras coisas... 
Só os amores que nascem já não morrem mais.  Por mais que eu precise que eles não estejam mais morando em mim, eles não se vão. E me acumulam tanto, que me fazem sentir ânsia de viver, multiplicando minha existência.

EmmyLibra
Sep 1st, 2013 - 10:06 p.m.


Saturday, August 17, 2013

Seu olhar

Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me fala de coisas lindas que nunca vi, 
Me fala de sonhos que nem ousei sonhar... 

Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me conta histórias de um tempo perdido 
Entre o espaço e o medo, 
Entre o desejo e a dor... 

Ah! Esse seu olhar...

EmmyLibra
Aug 17, 2013 - 8:57 p.m.

Tuesday, August 06, 2013

...


Pobres de nós, seres humanos, 
que precisamos ter mais 
do que nossos ombros 
podem carregar!


EmmyLibra
Data incerta



Duelo

Felizes aqueles que em tenra idade despedem-se da vida.  Esses não sentiram a angústia de serem disputados a ferro e a fogo por dois cavaleiros de armaduras reluzentes: o desejo e o temor.

A esses dois cavaleiros muitos dão diferentes nomes, como: mal e bem, id e superego, coração e razão.  E entre eles, nossa pequena alma se encolhe, à espera de que seu duelo um dia termine, para que haja novamente paz e silêncio dentro de nós.

Aqueles que da vida se afastam antes de ouvirem o tilintar das espadas desses dois bravos lutadores sobre suas cabeças são os verdadeiros felizes da Terra! Talvez por isso Jesus certa feita tenha dito que o reino divino pertencia a quem se lhes assemelhasse.  Porque, uma vez conhecidos por nós esses cavaleiros, nunca mais sentiremos a calmaria da inocência dentro do peito.  E o reino divino é, antes de tudo, reflexo de nossa paz interior.  Enquanto ela não se faz, o inferno está estabelecido em nossas entranhas, como um fogo inextinguível.  

EmmyLibra
Aug 6, 2013 - 2:35 p.m.


Monday, August 05, 2013

Aprendi...

Aprendi que...

I

Casamento não é sociedade.  Não é negócio. Não pode ser tratado como tal. 
A partir do momento em que um casal briga por questões financeiras, levando a discussão a influenciar sua relação pessoal, ou seja, a arranhar o que chamam de "amor", então já não há mais um casamento.  Há, sem que percebam, uma relação de prostituição.  
Ao fazer com que o dinheiro que circula na manutenção da vida a dois se torne centro de suas atenções e motivo de suas discórdias, estão dizendo, um ao outro, que esse é o sangue que corre nas veias da família.
Alguém já está se vendendo – e nem percebe!
Não transforme seu casamento numa negociata na qual quem ganha mais manda. A partir do momento em que alguém manda em alguém, isso por si só já desconfigura o que podemos chamar de casamento. E a partir do momento em que alguém se submete por valores financeiros, isso por si só já se pode chamar de prostituição.
Como profissão, a prostituição é válida. Não estou aqui a censurá-la ou a quem a pratica. O que quero dizer é que a pessoa que faz dela uma escolha de vida deve estar consciente do que isso representa, inclusive no que tange à recriminação que ainda impera sobre a profissão. Mas quem lhe compra como um serviço prestado precisa estar também consciente do que está pagando e do que espera receber, como em qualquer negócio. Para que, além da recriminação preconceituosa advinda de fatores culturais, religiosos e morais, não recaia sobre quem se vende a culpa real de uma negociação escusa, desonesta, imoral. 
O casamento, portanto, precisa estabelecer para o dinheiro seu devido valor e importância, deixando-o a cargo de manter as necessidades materiais da família.  Não se pode permitir que o amor seja trocado por moeda, ou teremos que considerar para essa relação outra nomenclatura, que não a de conjugal.


EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.




II

Casamento não é moleta. Não é escora, tipoia, bengala.
O outro não pode ser visto como "nossa metade", porque casamento não pode ser feito por duas pessoas pela metade!
As pessoas precisam estar (ser) inteiras numa relação, para que seja uma relação saudável. Não podem colocar sobre os ombros do outro a responsabilidade por sua felicidade.  O outro pode ser co-responsável, colaborador da sua felicidade, mas não tem, em absoluto, nenhuma obrigação de ser a razão dela.  É injusto sobrecarregar alguém com esse dever, porque cabe a cada um de nós buscar em nossa própria essência, motivos para sorrir e para ser feliz.  Ao dependermos do outro para isso, o que será de nós se o outro se for para sempre?
Interdependência não é dependência!  É estar presente, fazer parte, interagir. É co-autoria, é co-participação, cooperação.  Não se pode confundir interdepender com depender, porque este segundo nada mais é do que ser carregado nos ombros do outro!
O casamento precisa de equilíbrio. Quando as duas partes caminham juntas, de mãos dadas, plantando felicidade ao longo do caminho, ambos se auxiliarão e se apoiarão quando necessário.  Mas se um caminha levando o outro sobre os ombros, sem descanso, dia chegará que estará cansado demais, e se sentirá velho e exausto, caindo à margem do caminho que traçaram, sem nunca ter sentido o perfume das flores, porque jamais teve os braços livres para semear do seu lado da estrada.
Alguém vai sair perdendo nessa história!
Pessoas que se amam, verdadeiramente, não se permitem ser estorvo para o outro.  Se cai em doença ou impossibilidade, o amor do outro lhe dá forças e pernas, lhe apoiando. É diferente!  A necessidade material de ajuda não tem nenhuma relação com a necessidade psíquica. A primeira vem de fatalidades e requer cuidados reais. A segunda vem de fantasias e enganos, e só causa fadiga e empobrecimento na outra parte.  É injusta, desonesta!
Caminhar pelos próprios pés, sem sobrecarregar o outro, é sinal de maturidade.  Não se pode pensar que o casamento se mantém das ilusões de que o outro, por amor, sempre nos carregará no colo, porque um dia o outro cansa-se (de nós?!) e cairemos, ambos, sem chegar a lugar nenhum.


EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.


Friday, June 14, 2013

Eu só queria
não desejar tanto...

EmmyLibra

Jun 14, 2013 - 8;55 a.m.

Tuesday, June 11, 2013

Uno

Quando – e somente quando – a humanidade não precisar mais da existência de psicólogos, então poderá afirmar que está em condições de COMEÇAR a ter consciência religiosa verdadeira. 
Por enquanto, o que temos é uma dependência do sobrenatural para suportar nossas frustrações e para nos apoiar, como aleijados, usando a ilusão de que as forças que vêm das divindades nos possam suspender do chão, quando este nos parece muito cheio de cascalhos causticantes.
A experiência da comunhão verdadeira e efetiva com Deus, a partir de então, passará a ser vista não como um amuleto que nos proteja ou como um alimento que nos sacie – nos sirva –, mas como uma energia que flui, dinamicamente, dEle para nós e de nós para Ele, incessantemente, perenemente.
Religião ainda tem conotação muito próxima de suporte para pendurarmos nossas angústias e anseios. Também serve para exercitarmos a falsa humildade de não assumirmos nossos sucessos, pela ilusão de que, assumindo-os, nos tornaríamos menos dignos.  
Dia chegará em que religião será apenas um conceito circunscrito ao passado das palavras e sentidos materiais humanos. Não haverá mais a necessidade dela, porque seremos em Deus e Ele em nós, como algo íntimo, indissociável, uno. Seremos, enfim, o que Ele talvez espere de nós, desde a nossa criação.


EmmyLibra
Jun 11, 2013 - 12:03 p.m.

Monday, June 10, 2013

Sem estrelas

Um cego de nascença não sente saudades daquilo que nunca viu. 
Até que um dia, por uma mágica qualquer, ele sonha com uma noite de verão, sem nuvens, sem lua, com o céu coalhado de estrelas.  E ele pode ver, nesse sonho, toda a beleza e imensidão do universo, com pedras preciosas cintilando sobre o pano escuro da noite.
Ao acordar, na escuridão da sua cegueira [sem estrelas ao fundo], ele já não é mais o mesmo. E, deste momento em diante, sente saudades do que viu no sonho.  Sente saudades do milagre de ver, de sentir.
Assim aconteceu comigo: eu era uma, antes de ver o pano escuro da noite salpicado de luzes coloridas, e me tornei outra, ao despertar do sonho. Sou outra. Incompleta, sôfrega, vazia, nostálgica. Perdida no vazio de uma cegueira em que eu nem sabia que vivia, e que era antes o meu abrigo seguro.
Sinto a escuridão tomar conta do meu olhar, tão distante do milagre de ver as luzes coloridas que antes eu ignorava...

– Para que o milagre de ver, então, numa contemplação tão breve daquele límpido céu de verão, com pedras preciosas derramadas sobre o pano escuro da noite?

Melhor seria continuar sem saber das estrelas...


EmmyLibra
Jun 10, 2013 - 3:30 p.m.


Sunday, June 09, 2013

Rosa-outono


Dá-me o beijo da tua boca rósea
E me sentirei saciada por uma vida inteira!

Mas sabe tu que minha vida findará
No seguinte instante em que descolares
Teus lábios róseos dos meus.

Findará, e em seu lugar surgirá uma nova vida:
Vazia, dolorosa, sofrida, reticente,
De longas esperas e angústias,
Na qual buscarei novamente o rosa-outono
E a umidade doce e morna
Da tua boca nua.

Mas morrerei de novo
E tantas vezes quantos forem teus abandonos,
Tuas partidas, 
Tuas recusas em pousares teus róseos lábios 
Nos meus.

Morrerei sempre que tuas ausências em mim
Dêem à minha existência
Os ares frios e os campos sem flores
Desse infindável outono
De viver sem ti.

EmmyLibra

Jun 9, 2013 – 9:30 a.m.

Saturday, June 01, 2013

Resposta do Severino ao mestre carpina*


[...] Como então dizer quem falo  / ora a Vossas Senhorias?  /  Vejamos: é o Severino  /  da Maria do Zacarias, /  lá da serra da Costela, /  limites da Paraíba.
[...] Mas isso ainda diz pouco: /  se ao menos mais cinco havia.
[...] E se somos Severinos  /  iguais em tudo na vida,  /  morremos de morte igual,  /  mesma morte severina:  /  que é a morte de que se morre /  de velhice antes dos trinta,  /  de emboscada antes dos vinte  / de fome um pouco por dia.
[...] 
— Seu José, mestre carpina,  /  que diferença faria  /  se em vez de continuar  /  tomasse a melhor saída:  /  a de saltar, numa noite,  /  fora da ponte e da vida?


(Trechos extraídos do livro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto)**



QUANDO SEVERINO, RETIRANTE, RESPONDE AO CARPINA 
SOBRE SUA DECISÃO DE VIVER OU DE MORRER*


Seu José, mestre carpina, se me permite dizer
Comecei minha jornada querendo esclarecer
E relatar quem eu sou, tentando me descrever.

Mas eram tantos pormenores que me faziam quem era
Que desisti de um nome pra me mostrar em jornada
Pelos meus atos, meus sonhos, meus desenganos de vida
Minhas paradas, uns medos e solidões ressentidas.

Diante de mortes e vidas, severinas como a minha
Eu segui pelo caminho, ora pensando aqui dentro
Ora olhando para fora, ora me contradizendo
Convidando a quem quisesse saber de mim um bocado
Do que nem mesmo eu sabia, e aprendi nesses passos.

Como Vossa Senhoria me diz, com propriedade,
Ao longo do meu caminho a vida se mostrou teimosa
Não tenho ainda certezas se vale a pena viver.
Mas vivo o momento de agora, esse da nossa prosa
E sei que essa mesma força que me sustenta hoje
E me trouxe do sertão pro litoral, pra cidade
É a que move essa vida, não me deixa enlouquecer.

É essa vida torta, essa vida severina
Dolorosa, tão difícil e esturricada de seca
Que me mostrou minha sina de ser também um teimoso
De não querer dessa ponte e dessa existência hoje
Pular para fora, me render, me sentir assim medroso.

Prefiro a dor, cada dia, a fome e o estar só
Do que descobrir que não sou quem tentei dizer que era
Do que perder de mim mesmo o nome e capacidade
De entender de mim mesmo, de ter uma identidade.

Mesmo sendo um caminhante, mesmo me confundindo
Com tantos outros que passam por mim ao longo da vida
Tantos outros severinos, em dores, em sina, e em lida,
Essa ponte e essa vida não mais me verão pular
Mais vale seguir sofrendo, mas sonhando e existindo
Do que pensar numa morte, severina como d’outros
Que, como eu, num momento de fome e de desespero
Desistiram de viver, de continuar seu caminho.

Mais vale ser um teimoso, agarrado ao fio da vida
Do que ser mais um na cova, rasa, sob medida
Mais vale ser severino de sina, de dor e de lida
Do que abrir mão dos meus sonhos, que é de não precisar
Tantos nomes e lugares, coisas a explicar
Pra dizer quem eu sou – e a dúvida se afasta!
Sou apenas Severino: este que aqui me apresento.
E Vossa Mercê que ouve, desde o começo, atento
A mim me dirá que a vós, saber só isso já basta.


EmmyLibra
May 28, 2013 - ± 3:00 p.m.


* Post criado a partir de atividade proposta pela professora Andréa Moreira (amo!!), na disciplina Psicologia Social (amo também!!), na qual deveríamos criar um novo final para o poema, a partir dos conceitos de Identidade vistos em sala de aula. Tomei, então, a liberdade de tentar escrever continuando o estilo. Nem de longe consegui dar sequência ao brilhante trabalho do João Cabral, claro! Mas fica o texto como recordação da aula e como homenagem ao escritor, que admiro profundamente.
O texto original fala muito de coisas que conheço bem: também migrei muitas vezes, embora em condições bem diferentes e mais fáceis, mas com a mesma velha conotação de abandonar referências para buscar-se em outras novas e desconhecidas...  E hoje, se tenho um pouso, se tenho um lugar onde quero estar, foi por ter tido a oportunidade de experimentar diferentes espaços e conhecer pessoas que agora fazem parte da minha vida de modo positivo, para que meu hoje-aqui valha a pena.  Andréa Moreira é uma delas.  =) 

** A quem interessar a leitura do texto original, do João Cabral de Melo Neto, está disponível na íntegra em  http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf 
Eu recomendo!  ;)




Wednesday, May 15, 2013

Identidade


"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante..."
                                                                     (Raul Seixas)


Eu sou a que está aqui, agora, escrevendo estas palavras, sentada numa cadeira e respirando o ar desta sala onde me encontro.
Daqui a pouco já não mais serei a mesma, porque até o que vem de dentro de mim – como as palavras de agora – é capaz de me modificar e me fazer uma pessoa inteiramente nova, uma outra – que também sou – e que continua a primeira, a do início, ou que se sobrepõe a ela.
Sou o instante presente de mim mesma. Sou alguém que resultou dos instantes anteriores meus, de outros e dos muitos ondes em que já habitei. E não mais serei esta no meu instante seguinte, por também habitarem neste meu instante de agora outras pessoas e muitos ondes, inclusive os que estão – ou são – ausentes deste meu ser no espaço-tempo presente, e que terminará a escrita em mais algumas poucas palavras.
Ao terminar a escrita, portanto, eu nem mesmo sou aquel'outra que começou a fala, e que morava naquele "eu" que tentava dizer-se, verbalizar-se, identificar-se na própria experiência de ser...


EmmyLibra
May 15, 2013 - 9:15 a.m.



Falar de identidade não é falar do que se é, mas de um "estar" tão breve e ao mesmo tempo tão intenso, que cabe num efêmero instante de pensar, mas não cabe dentro de si mesmo... 
                                                                                                                               (Added: May 15, 2013 - 10:29 p.m.)


Saturday, April 06, 2013

='(


=(
Meus dias não têm sido fáceis.
Se ao menos pudesse abraçar você ao final de cada um deles...
Toda a dor desapareceria por um instante insano e surreal e eu poderia sentir a eternidade de viver, condensada neste breve momento em que a sua mágica presença estivesse ao alcance dos meus sentidos...
Ainda sinto tanto a sua falta...
=(

EmmyLibra
Apr 6, 2013 - 11:56 p.m.

Monday, March 25, 2013

Sobre o tempo


Estou envelhecendo.
Às vezes isso me incomoda, às vezes isso me alegra.
De um jeito ou de outro, o tempo não se importa. O tempo não se importa mesmo com o que penso. Se estou feliz ou chateada com seu passar, isso não o faz parar.
Então, a vida vai me dando presentes junto com as rugas: vai me dando saberes, enquanto leva embora alguns itens da minha juventude; vai deixando liberdades, a despeito de raptar alguns sonhos fúteis...
Assim é envelhecer, para mim.
Assim é ficar chateada e admitir que a flacidez que se faz em meu corpo, antes cheio de vigor, me incomoda. Mas é, sobretudo, admitir que hoje sou alguém que, 
cada dia mais, vale  a pena ser, que vale mais a pena amar a cada instante, a cada passo. 
E me amo. Com todas as rugas e com a subtração contínua dos dias, meses ou anos que me restam.
Aliás, amo-me justamente por todos esses detalhes do envelhecer!


EmmyLibra
Mar 24, 2013 - 11 p.m.



Friday, March 08, 2013

Sob o viaduto


Grafite sob viaduto Santa Efigênia, em Belo Horizonte: autor desconhecido.* 



Um menino dorme sob o viaduto

Carros passam sobre o viaduto
Sobre seu corpo

Pessoas passam sobre o viaduto
Pisando o viaduto
Pisando seu corpo

Passos apressados, desleixados
Despreocupados do menino que dorme

Passos pesados, densos, com saltos de agulha
A pisar sobre o menino
Indiferentes ao menino em seu sono.

O menino talvez ignore
Os saltos dos sapatos que lhe esmagam
Os carros que lhe atropelam
O desleixo dos passos apressados
A indiferença dos homens e mulheres
Que passam sobre o viaduto – sobre ele próprio
Em seus carros, em seus saltos de sapato.

Quem passa sobre o viaduto
Muitas vezes diz não saber
Que sob seus passos pesados, estirado sob o concreto
Jaz um menino, como sepultado em sono
Como sepultado em vida.

Os transeuntes sobre o viaduto e o menino que dorme:
Quem sabe menos de vida – ou de morte?
Quem pode dizer que desconhece pisar
Ou ser pisado?

EmmyLibra
Oct 9, 2012 – 7:45 a.m. 


* Desconheço o autor do grafite que aparece na foto de ilustração do post. Se alguém o identificar, peço a gentileza de deixar esta informação nos comentários, para que eu coloque os créditos devidos da imagem.