Thursday, December 25, 2014
Wednesday, December 10, 2014
Para Angélica
Você tem cara de natureza!
Dessas coisas boas que existem e que a poluição ainda não alcançou.
Tem cara de poesia, de dormir em rede, de pescar em rio, de banhar-se em cachoeira.
Tem jeito de flor.
E sua alma tem cheiro de mato, depois que a chuva fina molhou as folhas
e os passarinhos começaram a cantar.
Tem olhar de conhecer e ouvido de saber.
Tem ondas do mar nos seus cabelos e força de vendaval em seus desejos.
É grande, como árvore frondosa.
Delicada, como flor do campo.
Tem um quê de aconchego, como sombra em dia de sol quente,
e a gente tem vontade de quedar-se ali, no conforto de sua presença,
até que o dia anoiteça e as estrelas enfeitem seus cabelos de mar.
Tem som de córrego, em cujas margens as borboletas pousam para beber.
Tem cores de mundo e luz de compaixão.
E é em você, criatura moldada no barro de um sonho divino,
que repousam todas as formas que aos olhos e almas encantam.
Às vezes dá até medo contemplar a tua beleza!
Dessas coisas boas que existem e que a poluição ainda não alcançou.
Tem cara de poesia, de dormir em rede, de pescar em rio, de banhar-se em cachoeira.
Tem jeito de flor.
E sua alma tem cheiro de mato, depois que a chuva fina molhou as folhas
e os passarinhos começaram a cantar.
Tem olhar de conhecer e ouvido de saber.
Tem ondas do mar nos seus cabelos e força de vendaval em seus desejos.
É grande, como árvore frondosa.
Delicada, como flor do campo.
Tem um quê de aconchego, como sombra em dia de sol quente,
e a gente tem vontade de quedar-se ali, no conforto de sua presença,
até que o dia anoiteça e as estrelas enfeitem seus cabelos de mar.
Tem som de córrego, em cujas margens as borboletas pousam para beber.
Tem cores de mundo e luz de compaixão.
E é em você, criatura moldada no barro de um sonho divino,
que repousam todas as formas que aos olhos e almas encantam.
Às vezes dá até medo contemplar a tua beleza!
EmmyLibra
Dec 10, 2014 - 10:15 a.m.
Tuesday, August 26, 2014
Carpe Diem!
Eu sou um ser humano. Como qualquer outro que habita sobre a face da Terra, como qualquer outro que se reconheça na mesma categoria de seres vivos.
Eu como, bebo, solto pum, arroto, faço xixi e cocô como qualquer mortal que possua um aparelho digestório e um sistema excretor. Às vezes eu ronco quando durmo e quase sempre espirro quando estou gripada. Como qualquer pessoa.
Quando tenho pesadelos, acordo chorando. Quando tenho sonhos bons, acordo sorrindo.
Eu me sinto cansada, às vezes. Exausta, mesmo. E não é só da exaustão física, mas também da mental, da emocional, da sentimental.
Eu sinto dores – graças a Deus! – e elas são meu alerta-vermelho de que há algo errado acontecendo comigo. Mas é, também, meu alerta verde de que estou viva.
Eu tenho sonhos, faço planos, elaboro ideias – tantas, que muitas vezes nem cabem mais na minha cabeça, tão grandes e numerosas se tornam!
Eu amo. Profundamente.
Amo muitas pessoas e fatos, pensamentos e sons, sendo que, do amor, eu não me sinto repleta nunca!
Há no amor uma matemática muito louca, na qual quanto mais amor ocupando meu coração, mais amor cabe dentro dele. Uma dilatação dos espaços, uma multiplicação de mim mesma.
Mas eu também sofro. E me ressinto de ausências. Também permito ao meu corpo sentir o vazio e a solidão dessas ausências que se refletem em êxtases irrealizados, incompletos, insaciados...
As presenças que a vida me oferta são sorvidas com força para dentro de mim, sem hesitações. Porque, uma vez que já sentimos fome de um afeto ou de uma sensação, uma vez que já experimentamos as ausências, nos acostumamos a ter pressa de viver e de sentir.
O ontem nos rouba celeremete os recursos da juventude; o amanhã é tão incerto quanto um passo na escuridão de um pântano. Resta-nos o agora.
É no dia de hoje, no momento presente, neste exato instante em que a vida flui em mim, que quero estar viva e experimentar cada gole de emoção que esta existência me entrega em seu cálice dourado.
Carpe Diem!
EmmyLibra
Aug 25, 2014 - 8:22 a.m.
Sunday, June 08, 2014
Parêntesis
Eu gostaria de poder viver de arte! – acho que é a undécima milésima vez que digo isso nos últimos dez dias!
A arte tem sempre uma surpresa, algo fora do comum, onde podemos viver do novo, constantemente!
Estou farta da rotina, dos compromissos, das prestações de contas, dos julgamentos alheios, dos desejos alheios a controlarem os meus...
Tem momentos que parece que o mundo emborca sobre mim! Tudo urge, tudo me chama, tudo me arrasta!
Nessas horas eu preciso abrir um parêntesis na vida. Paro tudo, abandono compromissos, desligo o celular, entro no Parque Municipal e fico lá, sentada ao lado de uma nascente, só ouvindo o barulhinho da água.
O mundo pode estar louco lá fora, mas sempre encontro naquela fonte de águas cristalinas um refúgio, para onde eu vou quando quero me libertar do stress.
Fico desconectada de tudo por umas duas horas. E quando saio de lá, a vida continua a mesma, com os mesmos velhos problemas, o mesmo trânsito insuportavelmente congestionado, a urgência das coisas... Mas – que bom!– ninguém morreu porque estive fora por duas horas!
O mundo não se acabou, nenhuma bomba atômica destruiu a humanidade, ninguém ficou mais rico nem mais pobre, nem mais louco nem mais são porque me ausentei.
Quanto a mim... Ah! Eu não sou mais a mesma de duas horas antes!
Sinto-me como se fosse um pouco mais "dona" de mim mesma, menos sujeita às decisões, horários e agendas dos outros, menos sufocada. É como dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?"
Mas tudo isso é ridículo e você é muito boba! – você há de dizer. Porque eu continuo escrava das agendas dos outros, do ritmo alucinado da vida urbana, dos compromissos inadiáveis... Basta sair daquele parêntesis e tudo volta a ser como antes.
Mas a sensação de leveza que experimento por duas horas me ajuda a conservar minha identidade, em meio ao caos. Me ajuda a repor energias para suportar a mesmice, a rotina, os deveres, os mil diferentes conflitos que há dentro de mim, quando vejo o mundo inteirinho à minha volta como se estivesse sempre prestes a ruir, pela fragilidade dos laços com que as pessoas atam suas vidas, hoje em dia.
São duas horas de um parêntesis que me permito abrir. E dentro desse parêntesis não cabem celulares, compromissos, medos, anseios, dores, sofrimentos, inquietações.
Dentro desse parêntesis não cabe mais nada além de mim mesma, do som da água da fonte caindo sobre as pedras, alguns peixinhos me cumprimentando, de vez em quando... E também a paz – imensa, morna e acolhedora paz! – e o silêncio que cultivo dentro de mim, nesse instante, quando calo até meus pensamentos, só para ouvir aquele barulhinho suave da água nas pedras.
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior, mergulhados em meu parêntesis sagrado, em meio a um parque que está encrustado no coração do caos, numa das maiores cidades deste país!
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio inerior. Um silêncio quase mortal, mas no qual reabasteço-me de mim mesma, reconheço minha real identidade: aquela que, para imergir no social, travisto de mil diferentes papéis, mas que não são o que sou ou, pelo menos, não são tudo o que sou.
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior. Por duas sagradas horas eu me encontro comigo mesma e me permito ficar ali, isolada da vida que urge e me arrasta. A salvo do caos, por duas horas. A salvo de tudo que fere minha condição de humanidade e que me condena a uma vida em que até nossas escolhas são moldadas pelo que nos é exterior, e não pelos nossos reais desejos.
Eu gostaria de viver de arte... Mas minhas escolhas foram moldadas dentro do possível, dentro dos encaixes dos desejos alheios, dos espaços que minha história pessoal circunscreveu para a morada da minha alma.
Então, por duas horas apenas, escolho viver dentro de um parêntesis sagrado...
Às vezes, preciso dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?". E ser dona de mim. Nem que seja por duas horas apenas.
Já que por aqui não se consegue viver de arte e "ser" está condicionado aos espaços que nossa história pessoal circunscreve para nós...
A arte tem sempre uma surpresa, algo fora do comum, onde podemos viver do novo, constantemente!
Estou farta da rotina, dos compromissos, das prestações de contas, dos julgamentos alheios, dos desejos alheios a controlarem os meus...
Tem momentos que parece que o mundo emborca sobre mim! Tudo urge, tudo me chama, tudo me arrasta!
Nessas horas eu preciso abrir um parêntesis na vida. Paro tudo, abandono compromissos, desligo o celular, entro no Parque Municipal e fico lá, sentada ao lado de uma nascente, só ouvindo o barulhinho da água.
O mundo pode estar louco lá fora, mas sempre encontro naquela fonte de águas cristalinas um refúgio, para onde eu vou quando quero me libertar do stress.
Fico desconectada de tudo por umas duas horas. E quando saio de lá, a vida continua a mesma, com os mesmos velhos problemas, o mesmo trânsito insuportavelmente congestionado, a urgência das coisas... Mas – que bom!– ninguém morreu porque estive fora por duas horas!
O mundo não se acabou, nenhuma bomba atômica destruiu a humanidade, ninguém ficou mais rico nem mais pobre, nem mais louco nem mais são porque me ausentei.
Quanto a mim... Ah! Eu não sou mais a mesma de duas horas antes!
Sinto-me como se fosse um pouco mais "dona" de mim mesma, menos sujeita às decisões, horários e agendas dos outros, menos sufocada. É como dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?"
Mas tudo isso é ridículo e você é muito boba! – você há de dizer. Porque eu continuo escrava das agendas dos outros, do ritmo alucinado da vida urbana, dos compromissos inadiáveis... Basta sair daquele parêntesis e tudo volta a ser como antes.
Mas a sensação de leveza que experimento por duas horas me ajuda a conservar minha identidade, em meio ao caos. Me ajuda a repor energias para suportar a mesmice, a rotina, os deveres, os mil diferentes conflitos que há dentro de mim, quando vejo o mundo inteirinho à minha volta como se estivesse sempre prestes a ruir, pela fragilidade dos laços com que as pessoas atam suas vidas, hoje em dia.
São duas horas de um parêntesis que me permito abrir. E dentro desse parêntesis não cabem celulares, compromissos, medos, anseios, dores, sofrimentos, inquietações.
Dentro desse parêntesis não cabe mais nada além de mim mesma, do som da água da fonte caindo sobre as pedras, alguns peixinhos me cumprimentando, de vez em quando... E também a paz – imensa, morna e acolhedora paz! – e o silêncio que cultivo dentro de mim, nesse instante, quando calo até meus pensamentos, só para ouvir aquele barulhinho suave da água nas pedras.
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior, mergulhados em meu parêntesis sagrado, em meio a um parque que está encrustado no coração do caos, numa das maiores cidades deste país!
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio inerior. Um silêncio quase mortal, mas no qual reabasteço-me de mim mesma, reconheço minha real identidade: aquela que, para imergir no social, travisto de mil diferentes papéis, mas que não são o que sou ou, pelo menos, não são tudo o que sou.
Eu, água, pedras, peixes, paz e silêncio interior. Por duas sagradas horas eu me encontro comigo mesma e me permito ficar ali, isolada da vida que urge e me arrasta. A salvo do caos, por duas horas. A salvo de tudo que fere minha condição de humanidade e que me condena a uma vida em que até nossas escolhas são moldadas pelo que nos é exterior, e não pelos nossos reais desejos.
Eu gostaria de viver de arte... Mas minhas escolhas foram moldadas dentro do possível, dentro dos encaixes dos desejos alheios, dos espaços que minha história pessoal circunscreveu para a morada da minha alma.
Então, por duas horas apenas, escolho viver dentro de um parêntesis sagrado...
Às vezes, preciso dizer ao mundo: "Ei! você não manda em mim tanto assim! Posso desconectar quando quero, ouviu?". E ser dona de mim. Nem que seja por duas horas apenas.
Já que por aqui não se consegue viver de arte e "ser" está condicionado aos espaços que nossa história pessoal circunscreve para nós...
EmmyLibra
Jun 8, 2014 - 3:09 p.m.
Friday, May 16, 2014
Tua grandeza
Sinto falta
do tempo em que eu te bebia.
Bebia teu
conteúdo, tuas ideias, teus saberes.
Bebia tua
genialidade, diluída em palavras e gestos.
Era muito
bom sentir o teu gosto em minha saliva!
Alimentava-me. Fazia-me sentir como se um dia, de tanto
beber o que eras, eu pudesse, enfim, reter em mim um pouco de ti — ao menos o
suficiente para fazer parte do teu mundo, de algum modo, embora certa de que jamais
conseguiria ser tão grande quanto és, ter essa imensidão da tua alma inquieta.
Tua
grandeza me encanta!
Estou
apaixonada por ela...
— Dei-me permissão para estar!
Permiti ao
meu coração amar-te, amar teu gosto.
E, sempre
que for possível, voltarei a ti, como a uma fonte, para enganar a sede que me
persegue: de saber, de conhecer, de conhecer-te; de possuir em minha própria existência uma
pequena porção do precioso material de que te constituis e cujo nome desconheço,
mas que me sacia!
Conta-me,
então: de que és feito, afinal?
De
dor? De sonhos? De Filosofia?
Não consigo
saber, sem que me digas.
Só sei que te
faz existir além do corpo. Além, mesmo, do
que chamam de alma!
És maior do
que tua própria pele!
Nunca te
apercebeste?
Eu percebi. E senti.
E tocar-te é
como tocar o inefável!
EmmyLibra
May 16, 2014
– 10:57am
Wednesday, April 16, 2014
Prioridades
O mundo, as pessoas do mundo, as vontades das pessoas do mundo... tudo isso é geralmente tão pequeno, tão insignificante, perto do que sonhamos...
Somos, incontáveis vezes, cruéis e inescrupulosos, na busca de nossas satisfações pessoais – queremos e queremos. E não nos importa se passamos sobre os outros, pisando e machucando, para agarrarmos um melhor bocado do que desejamos.
Somos mestres em criar necessidades! Amarramos nossos pés a pesadas pedras de desejos irrealizáveis e arrastamos essas enormes rochas pelas curvas do nosso caminho.
Às vezes, alguém que está ao nosso lado deseja apenas um prato de comida ou um pedaço de pão... Mas nós queremos voar e achamos complicado saciar a fome do outro.
É mais fácil comprar asas!
EmmyLibra
(Data incerta)
Somos, incontáveis vezes, cruéis e inescrupulosos, na busca de nossas satisfações pessoais – queremos e queremos. E não nos importa se passamos sobre os outros, pisando e machucando, para agarrarmos um melhor bocado do que desejamos.
Somos mestres em criar necessidades! Amarramos nossos pés a pesadas pedras de desejos irrealizáveis e arrastamos essas enormes rochas pelas curvas do nosso caminho.
Às vezes, alguém que está ao nosso lado deseja apenas um prato de comida ou um pedaço de pão... Mas nós queremos voar e achamos complicado saciar a fome do outro.
É mais fácil comprar asas!
EmmyLibra
(Data incerta)
Monday, March 31, 2014
Rebanho
Vejo hoje em dia muitos "cidadãos" que, na verdade não passam de reses de um rebanho cego, sem opinião embasada, que ontem batia panelas nas ruas, hoje segue algum movimento mais barulhento, amanhã outro... sem rumo, sem saber por que está seguindo, por puro modismo!
Não há convicção, não há integridade – e é bom lembrar que para cobrar integridade dos políticos é preciso também tê-la em nossos atos! – não há verdadeira cidadania, na raiz da palavra. Por isso me refiro a "cidadãos", usando aspas. Porque é fácil bater panelas, mas é difícil, no dia-a-dia, ser honesto para ter moral de cobrar honestidade de quem nos governa. É fácil gritar "jargões self-service", mas é difícil ponderar sobre o voto que vai depositar nas urnas. É fácil parecer cidadão, mas há uma distância enorme entre essa máscara de pessoa engajada e correta e o que podemos chamar de verdadeira participação política.
Aí, vem copa do mundo, e já sabemos: futebol leva a cervejada, que leva a festa, que leva a alegriazinhas fugazes... E quando chegarem as eleições, o povo ainda nem se curou da bebedeira, vai lá querer pensar em política? Vota de qualquer jeito, "nas coxas", seguindo qualquer pesquisa de opinião que for divulgada, sem vontade de mudar as coisas.
Quer saber? Deve estar muito bom! Enquanto houver futebol e cerveja, a massa vai empurrando a cidadania com a barriga, e quando alguém questionar isso, é só sair às ruas, batendo panelas com os jargões da moda, que tudo fica lindo e todos viram "patriotas" novamente.
E no domingo, é só dizer "Amém, irmãos!" numa igreja qualquer, e "todos os pecados estarão lavados"... inclusive o da cômoda omissão, da qual muitos morrem todos os dias nos becos e vielas do nosso país.
Não há convicção, não há integridade – e é bom lembrar que para cobrar integridade dos políticos é preciso também tê-la em nossos atos! – não há verdadeira cidadania, na raiz da palavra. Por isso me refiro a "cidadãos", usando aspas. Porque é fácil bater panelas, mas é difícil, no dia-a-dia, ser honesto para ter moral de cobrar honestidade de quem nos governa. É fácil gritar "jargões self-service", mas é difícil ponderar sobre o voto que vai depositar nas urnas. É fácil parecer cidadão, mas há uma distância enorme entre essa máscara de pessoa engajada e correta e o que podemos chamar de verdadeira participação política.
Aí, vem copa do mundo, e já sabemos: futebol leva a cervejada, que leva a festa, que leva a alegriazinhas fugazes... E quando chegarem as eleições, o povo ainda nem se curou da bebedeira, vai lá querer pensar em política? Vota de qualquer jeito, "nas coxas", seguindo qualquer pesquisa de opinião que for divulgada, sem vontade de mudar as coisas.
Quer saber? Deve estar muito bom! Enquanto houver futebol e cerveja, a massa vai empurrando a cidadania com a barriga, e quando alguém questionar isso, é só sair às ruas, batendo panelas com os jargões da moda, que tudo fica lindo e todos viram "patriotas" novamente.
E no domingo, é só dizer "Amém, irmãos!" numa igreja qualquer, e "todos os pecados estarão lavados"... inclusive o da cômoda omissão, da qual muitos morrem todos os dias nos becos e vielas do nosso país.
EmmyLibra
Mar 31, 2014 - 3:31p.m.
Saturday, March 15, 2014
Efêmero
Sob estrelas lânguidas
De brilho pálido
Amores frívolos
Se anunciam
Olhares ávidos
E passos trôpegos
Suspiros sôfregos
– Uma euforia!
Um vento tépido
Sussurros lúbricos
Palavras mágicas
Um despertar
O rosto cálido
As mãos tão gélidas!
Desejos súbitos
De se entregar
Contatos físicos
– Bem mais que físicos!
O corpo em êxtase
Quase um torpor!
O peito em música
A boca úmida
Momento único
A vida em flor
Mas, já por último,
O dia próximo
Fala de um tétrico
Alvorecer
O que era próspero
Se mostra efêmero
Se vai tão rápido
Que faz doer...
O ar hiálico
O sol a píncaro
Alma em desânimo
Preenche o ser
E o que era lírico
Se torna lúgubre
Se esvai em célere
Entardecer
EmmyLibra
Mar 14, 2014 – 11:09 a. m.
Monday, November 25, 2013
Basta!
Estou farta da vida comedida, dos limites, portas, regras. Me falta a aventura, o sal das
incertezas, o nonsense e o abstrato.
Faltam
as montanhas, os desertos, os mares profundos — Falta profundeza!
Faltam cores escuras se misturando com as claras. Faltam os carmins cheios das mágicas e
arrebatadoras paixões que nos fazem cometer loucuras. Falta o desejo de um beijo que me
roube o fôlego e em cuja saliva eu me queira afogar.
Estou cansada da rotina segura e previsível, de tudo o que é morno
e calmo, do tédio, da estabilidade irritante e da estagnação mortal.
Quero vida correndo em minhas veias, ao invés de sangue!
Quero o descomprometimento da loucura
e a força natural dos bichos. Quero
o poder criador e destruidor da natureza em meu ventre, para morrer na exaustão
de cada dia e renascer ao canto mágico dos pássaros.
Quero a sofreguidão; o açoite do vento no meu corpo nu.
Quero o imoral habitando meu seio e o despudor de um beijo roubado
habitando meu sonho.
Tenho saudades de um tempo em que eu gostava de voltar pra casa...
Mas é como ter saudades do que nunca tive.
Preciso afrouxar os nós, descalçar os sapatos, me lançar num
abismo. Preciso arrancar
minhas raízes e abrir as asas de minh’alma para voar sobre minhas angústias —
Quero ter alma de pássaro!
Prefiro um milhão de culpas doces que justifiquem minha viagem ao
inferno! Porque é
vergonhoso ser condenado por cometer pequenos erros e pagar o alto preço do
remorso por uma vida não vivida.
Se na urgência de existir que sinto agora eu não encontrar meu
coração, que se perdeu em nuvens de tempestade, sei que morrerei — não de
tristeza, que ainda seria doce! —, mas, pura e simplesmente por falta de vontade
de viver.
EmmyLibra
April 26, 2008
- 10:26pm
Sunday, September 15, 2013
Vida Eterna
A pergunta foi direta,
a resposta foi claríssima:
“E eis
que se levantou certo doutor da lei e, para o experimentar, disse: Mestre, que
farei para herdar a vida eterna?
Perguntou-lhe
Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?
Respondeu-lhe
ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de
todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti
mesmo.
Tornou-lhe
Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele,
porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?
Jesus,
prosseguindo, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de
salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o
meio morto. Casualmente, descia pelo
mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também
um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo.
Mas um
samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de
compaixão; e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e
vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou
dele.
No dia
seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e
tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.
Qual,
pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos
salteadores?
Respondeu
o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele.
Disse-lhe, pois,
Jesus: Vai, e faze tu o mesmo.”
Lucas 10:25-37
Então... Alguém ainda pode ter a cara de pau de dizer que “basta
crer”?!
A resposta de Jesus,
em NENHUM MOMENTO dizia que basta crer! Se
não AGIRMOS na demonstração do Amor ao próximo, a fé é infrutífera.
Não é “crer” em Deus,
mas AMAR a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo, como a si. Não sou eu quem está dizendo! Esta foi a resposta clara e direta de Jesus, diante da pergunta igualmente clara e direta que lhe foi feita: “Que farei para herdar a vida eterna?”
Um detalhe importantíssimo: Amar não é verbo passivo e inútil, segundo
Ele, mas, ao contrário, é verbo ativo e produtivo: limpar feridas, alimentar, vestir,
cuidar.
Estamos mesmo
preparados, cheios dessa generosidade, somos
mesmo tão capazes desse Amor produtivo, para MERECERMOS vida eterna?
Eu não sou. Sem falsa modéstia, sem drama, sem falsa
humildade. Eu não sou. Estou até beeeeem longe dessa tal vida eterna
que tantos vivem buscando e VENDENDO nos púlpitos!
Mas, ao contrário de
muitos, não me iludo pensando que só a minha fé em Deus supre o necessário para
merecê-la, nem pagamentos, nem cultos, nem rituais, nem palavreado bonito, nem mesmo preces...
Jesus não teria mentido,
nem teria aumentado ou diminuído as coisas na hora de falar. Ele disse tudo na justa medida do
correto. Ele, definitivamente, não seria
irresponsável, passando para as pessoas ali presentes uma fórmula falsa de
salvação! Não ensinaria o caminho errado
para que fosse seguido, nem mencionaria estas coisas, se elas não fossem o verdadeiro
meio de alcançar a vida eterna.
Portanto, a ideia de
que a fé é suficiente é errônea, ilusória.
A única certeza que tenho, depois de ler o
trecho supracitado, é que não estou entre os que passaram sobre a Terra,
até os dias de hoje, que pareçam ter compreendido e sobretudo PRATICADO o amor
ao próximo, conforme Jesus esperava que fôssemos capazes de fazer. Definitivamente, eu não estou.
Mas, se há alguém que
tenha presunção suficiente pra dizer que está, que me atire a primeira pedra!
EmmyLibra
Sep 15,
2013 – 8:21 p.m.
Sunday, September 01, 2013
Breves...
Minhas tristezas, alegrias, raivas, ódios, temores, coragens, medos, frios e calores duram menos do que o bater do coração de um colibri.
São breves demais e alternam-se tão avidamente dentro de mim, que me confundem.
Nem sempre sei o que estou sentindo, porque quando penso que entendi, é o instante seguinte, e já sinto outras coisas...
Só os amores que nascem já não morrem mais. Por mais que eu precise que eles não estejam mais morando em mim, eles não se vão. E me acumulam tanto, que me fazem sentir ânsia de viver, multiplicando minha existência.
EmmyLibra
Sep 1st, 2013 - 10:06 p.m.
São breves demais e alternam-se tão avidamente dentro de mim, que me confundem.
Nem sempre sei o que estou sentindo, porque quando penso que entendi, é o instante seguinte, e já sinto outras coisas...
Só os amores que nascem já não morrem mais. Por mais que eu precise que eles não estejam mais morando em mim, eles não se vão. E me acumulam tanto, que me fazem sentir ânsia de viver, multiplicando minha existência.
EmmyLibra
Sep 1st, 2013 - 10:06 p.m.
Saturday, August 17, 2013
Seu olhar
Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me fala de coisas lindas que nunca vi,
Me fala de sonhos que nem ousei sonhar...
Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me conta histórias de um tempo perdido
Entre o espaço e o medo,
Entre o desejo e a dor...
Ah! Esse seu olhar...
EmmyLibra
Aug 17, 2013 - 8:57 p.m.
Ah! Esse seu olhar...
Me fala de coisas lindas que nunca vi,
Me fala de sonhos que nem ousei sonhar...
Seu olhar,
Ah! Esse seu olhar...
Me conta histórias de um tempo perdido
Entre o espaço e o medo,
Entre o desejo e a dor...
Ah! Esse seu olhar...
EmmyLibra
Aug 17, 2013 - 8:57 p.m.
Tuesday, August 06, 2013
...
Pobres de nós, seres humanos,
que precisamos ter mais
do que nossos ombros
podem carregar!
EmmyLibra
Data incerta
Duelo
Felizes aqueles que em tenra idade despedem-se da
vida. Esses não sentiram a angústia de
serem disputados a ferro e a fogo por dois cavaleiros de armaduras reluzentes:
o desejo e o temor.
A esses dois cavaleiros muitos dão diferentes nomes, como: mal e bem, id e superego, coração e razão. E
entre eles, nossa pequena alma se encolhe, à espera de que seu duelo um dia
termine, para que haja novamente paz e silêncio dentro de nós.
Aqueles que da vida se afastam antes de ouvirem o tilintar das
espadas desses dois bravos lutadores sobre suas cabeças são os verdadeiros felizes da Terra! Talvez por
isso Jesus certa feita tenha dito que o reino divino pertencia a quem se
lhes assemelhasse. Porque, uma vez
conhecidos por nós esses cavaleiros, nunca mais sentiremos a calmaria da
inocência dentro do peito. E o reino
divino é, antes de tudo, reflexo de nossa paz interior. Enquanto ela não se faz, o inferno está
estabelecido em nossas entranhas, como um fogo inextinguível.
EmmyLibra
Aug 6, 2013 - 2:35 p.m.
Monday, August 05, 2013
Aprendi...
Aprendi que...
I
Casamento não é sociedade. Não é negócio. Não pode ser tratado como tal.
A partir do momento em que um casal briga por questões financeiras, levando a discussão a influenciar sua relação pessoal, ou seja, a arranhar o que chamam de "amor", então já não há mais um casamento. Há, sem que percebam, uma relação de prostituição.
Ao fazer com que o dinheiro que circula na manutenção da vida a dois se torne centro de suas atenções e motivo de suas discórdias, estão dizendo, um ao outro, que esse é o sangue que corre nas veias da família.
Alguém já está se vendendo – e nem percebe!
Não transforme seu casamento numa negociata na qual quem ganha mais manda. A partir do momento em que alguém manda em alguém, isso por si só já desconfigura o que podemos chamar de casamento. E a partir do momento em que alguém se submete por valores financeiros, isso por si só já se pode chamar de prostituição.
Como profissão, a prostituição é válida. Não estou aqui a censurá-la ou a quem a pratica. O que quero dizer é que a pessoa que faz dela uma escolha de vida deve estar consciente do que isso representa, inclusive no que tange à recriminação que ainda impera sobre a profissão. Mas quem lhe compra como um serviço prestado precisa estar também consciente do que está pagando e do que espera receber, como em qualquer negócio. Para que, além da recriminação preconceituosa advinda de fatores culturais, religiosos e morais, não recaia sobre quem se vende a culpa real de uma negociação escusa, desonesta, imoral.
O casamento, portanto, precisa estabelecer para o dinheiro seu devido valor e importância, deixando-o a cargo de manter as necessidades materiais da família. Não se pode permitir que o amor seja trocado por moeda, ou teremos que considerar para essa relação outra nomenclatura, que não a de conjugal.
EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.
II
Casamento não é moleta. Não é escora, tipoia, bengala.
O outro não pode ser visto como "nossa metade", porque casamento não pode ser feito por duas pessoas pela metade!
As pessoas precisam estar (ser) inteiras numa relação, para que seja uma relação saudável. Não podem colocar sobre os ombros do outro a responsabilidade por sua felicidade. O outro pode ser co-responsável, colaborador da sua felicidade, mas não tem, em absoluto, nenhuma obrigação de ser a razão dela. É injusto sobrecarregar alguém com esse dever, porque cabe a cada um de nós buscar em nossa própria essência, motivos para sorrir e para ser feliz. Ao dependermos do outro para isso, o que será de nós se o outro se for para sempre?
Interdependência não é dependência! É estar presente, fazer parte, interagir. É co-autoria, é co-participação, cooperação. Não se pode confundir interdepender com depender, porque este segundo nada mais é do que ser carregado nos ombros do outro!
O casamento precisa de equilíbrio. Quando as duas partes caminham juntas, de mãos dadas, plantando felicidade ao longo do caminho, ambos se auxiliarão e se apoiarão quando necessário. Mas se um caminha levando o outro sobre os ombros, sem descanso, dia chegará que estará cansado demais, e se sentirá velho e exausto, caindo à margem do caminho que traçaram, sem nunca ter sentido o perfume das flores, porque jamais teve os braços livres para semear do seu lado da estrada.
Alguém vai sair perdendo nessa história!
Pessoas que se amam, verdadeiramente, não se permitem ser estorvo para o outro. Se cai em doença ou impossibilidade, o amor do outro lhe dá forças e pernas, lhe apoiando. É diferente! A necessidade material de ajuda não tem nenhuma relação com a necessidade psíquica. A primeira vem de fatalidades e requer cuidados reais. A segunda vem de fantasias e enganos, e só causa fadiga e empobrecimento na outra parte. É injusta, desonesta!
Caminhar pelos próprios pés, sem sobrecarregar o outro, é sinal de maturidade. Não se pode pensar que o casamento se mantém das ilusões de que o outro, por amor, sempre nos carregará no colo, porque um dia o outro cansa-se (de nós?!) e cairemos, ambos, sem chegar a lugar nenhum.
EmmyLibra
Aug 5, 2013 - 8:31 a.m.
Tuesday, June 11, 2013
Uno
Quando – e somente quando – a humanidade não precisar mais da existência de psicólogos, então poderá afirmar que está em condições de COMEÇAR a ter consciência religiosa verdadeira.
Por enquanto, o que temos é uma dependência do sobrenatural para suportar nossas frustrações e para nos apoiar, como aleijados, usando a ilusão de que as forças que vêm das divindades nos possam suspender do chão, quando este nos parece muito cheio de cascalhos causticantes.
A experiência da comunhão verdadeira e efetiva com Deus, a partir de então, passará a ser vista não como um amuleto que nos proteja ou como um alimento que nos sacie – nos sirva –, mas como uma energia que flui, dinamicamente, dEle para nós e de nós para Ele, incessantemente, perenemente.
Religião ainda tem conotação muito próxima de suporte para pendurarmos nossas angústias e anseios. Também serve para exercitarmos a falsa humildade de não assumirmos nossos sucessos, pela ilusão de que, assumindo-os, nos tornaríamos menos dignos.
Dia chegará em que religião será apenas um conceito circunscrito ao passado das palavras e sentidos materiais humanos. Não haverá mais a necessidade dela, porque seremos em Deus e Ele em nós, como algo íntimo, indissociável, uno. Seremos, enfim, o que Ele talvez espere de nós, desde a nossa criação.
Por enquanto, o que temos é uma dependência do sobrenatural para suportar nossas frustrações e para nos apoiar, como aleijados, usando a ilusão de que as forças que vêm das divindades nos possam suspender do chão, quando este nos parece muito cheio de cascalhos causticantes.
A experiência da comunhão verdadeira e efetiva com Deus, a partir de então, passará a ser vista não como um amuleto que nos proteja ou como um alimento que nos sacie – nos sirva –, mas como uma energia que flui, dinamicamente, dEle para nós e de nós para Ele, incessantemente, perenemente.
Religião ainda tem conotação muito próxima de suporte para pendurarmos nossas angústias e anseios. Também serve para exercitarmos a falsa humildade de não assumirmos nossos sucessos, pela ilusão de que, assumindo-os, nos tornaríamos menos dignos.
Dia chegará em que religião será apenas um conceito circunscrito ao passado das palavras e sentidos materiais humanos. Não haverá mais a necessidade dela, porque seremos em Deus e Ele em nós, como algo íntimo, indissociável, uno. Seremos, enfim, o que Ele talvez espere de nós, desde a nossa criação.
EmmyLibra
Jun 11, 2013 - 12:03 p.m.
Monday, June 10, 2013
Sem estrelas
Um cego de nascença não sente saudades daquilo que nunca viu.
Até que um dia, por uma mágica qualquer, ele sonha com uma noite de verão, sem nuvens, sem lua, com o céu coalhado de estrelas. E ele pode ver, nesse sonho, toda a beleza e imensidão do universo, com pedras preciosas cintilando sobre o pano escuro da noite.
Ao acordar, na escuridão da sua cegueira [sem estrelas ao fundo], ele já não é mais o mesmo. E, deste momento em diante, sente saudades do que viu no sonho. Sente saudades do milagre de ver, de sentir.
Assim aconteceu comigo: eu era uma, antes de ver o pano escuro da noite salpicado de luzes coloridas, e me tornei outra, ao despertar do sonho. Sou outra. Incompleta, sôfrega, vazia, nostálgica. Perdida no vazio de uma cegueira em que eu nem sabia que vivia, e que era antes o meu abrigo seguro.
Sinto a escuridão tomar conta do meu olhar, tão distante do milagre de ver as luzes coloridas que antes eu ignorava...
– Para que o milagre de ver, então, numa contemplação tão breve daquele límpido céu de verão, com pedras preciosas derramadas sobre o pano escuro da noite?
Melhor seria continuar sem saber das estrelas...
Até que um dia, por uma mágica qualquer, ele sonha com uma noite de verão, sem nuvens, sem lua, com o céu coalhado de estrelas. E ele pode ver, nesse sonho, toda a beleza e imensidão do universo, com pedras preciosas cintilando sobre o pano escuro da noite.
Ao acordar, na escuridão da sua cegueira [sem estrelas ao fundo], ele já não é mais o mesmo. E, deste momento em diante, sente saudades do que viu no sonho. Sente saudades do milagre de ver, de sentir.
Assim aconteceu comigo: eu era uma, antes de ver o pano escuro da noite salpicado de luzes coloridas, e me tornei outra, ao despertar do sonho. Sou outra. Incompleta, sôfrega, vazia, nostálgica. Perdida no vazio de uma cegueira em que eu nem sabia que vivia, e que era antes o meu abrigo seguro.
Sinto a escuridão tomar conta do meu olhar, tão distante do milagre de ver as luzes coloridas que antes eu ignorava...
– Para que o milagre de ver, então, numa contemplação tão breve daquele límpido céu de verão, com pedras preciosas derramadas sobre o pano escuro da noite?
Melhor seria continuar sem saber das estrelas...
EmmyLibra
Jun 10, 2013 - 3:30 p.m.
Sunday, June 09, 2013
Rosa-outono
Dá-me o beijo da tua boca rósea
E me sentirei saciada por uma
vida inteira!
Mas sabe tu que minha vida findará
No
seguinte instante em que descolares
Teus lábios róseos dos meus.
Findará, e em seu lugar surgirá
uma nova vida:
Vazia, dolorosa, sofrida,
reticente,
De longas esperas e angústias,
Na qual buscarei novamente o
rosa-outono
E a umidade doce e morna
Da tua boca nua.
Mas morrerei de novo
E tantas vezes quantos forem teus
abandonos,
Tuas partidas,
Tuas recusas em pousares teus róseos lábios
Nos meus.
Tuas recusas em pousares teus róseos lábios
Nos meus.
Morrerei sempre que tuas ausências em mim
Dêem à minha existência
Os ares frios e os campos sem
flores
Desse infindável outono
De viver sem ti.
EmmyLibra
Jun 9, 2013 – 9:30 a.m.
Saturday, June 01, 2013
Resposta do Severino ao mestre carpina*
[...] Como então dizer quem falo / ora a Vossas Senhorias? / Vejamos: é o Severino / da Maria do Zacarias, / lá da serra da
Costela, / limites da Paraíba.
[...] Mas isso ainda diz pouco: / se ao menos mais cinco
havia.
[...] E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina: / que é a morte de que se morre / de velhice antes dos trinta, / de emboscada antes dos vinte / de fome um pouco por dia.
[...]
— Seu José, mestre carpina, / que diferença faria / se em vez de continuar / tomasse a melhor saída: / a de saltar, numa noite, / fora da ponte e da vida?
(Trechos extraídos do livro “Morte e Vida Severina”, de João
Cabral de Melo Neto)**
QUANDO SEVERINO, RETIRANTE, RESPONDE AO
CARPINA
SOBRE SUA DECISÃO DE VIVER OU DE MORRER*
Seu José, mestre carpina, se me permite dizer
Comecei minha jornada querendo esclarecer
E relatar quem eu sou, tentando me descrever.
Mas eram tantos pormenores que me faziam quem
era
Que desisti de um nome pra me mostrar em
jornada
Pelos meus atos, meus sonhos, meus desenganos
de vida
Minhas paradas, uns medos e solidões
ressentidas.
Diante de mortes e vidas, severinas como a
minha
Eu segui pelo caminho, ora pensando aqui
dentro
Ora olhando para fora, ora me contradizendo
Convidando a quem quisesse saber de mim um
bocado
Do que nem mesmo eu sabia, e aprendi nesses
passos.
Como Vossa Senhoria me diz, com propriedade,
Ao longo do meu caminho a vida se mostrou
teimosa
Não tenho ainda certezas se vale a pena
viver.
Mas vivo o momento de agora, esse da nossa
prosa
E sei que essa mesma força que me sustenta
hoje
E me trouxe do sertão pro litoral, pra cidade
É a que move essa vida, não me deixa
enlouquecer.
É essa vida torta, essa vida severina
Dolorosa, tão difícil e esturricada de seca
Que me mostrou minha sina de ser também um
teimoso
De não querer dessa ponte e dessa existência
hoje
Pular para fora, me render, me sentir assim
medroso.
Prefiro a dor, cada dia, a fome e o estar só
Do que descobrir que não sou quem tentei
dizer que era
Do que perder de mim mesmo o nome e
capacidade
De entender de mim mesmo, de ter uma
identidade.
Mesmo sendo um caminhante, mesmo me
confundindo
Com tantos outros que passam por mim ao longo
da vida
Tantos outros severinos, em dores, em sina, e
em lida,
Essa ponte e essa vida não mais me verão
pular
Mais vale seguir sofrendo, mas sonhando e
existindo
Do que pensar numa morte, severina como
d’outros
Que, como eu, num momento de fome e de
desespero
Desistiram de viver, de continuar seu
caminho.
Mais vale ser um teimoso, agarrado ao fio da
vida
Do que ser mais um na cova, rasa, sob medida
Mais vale ser severino de sina, de dor e de
lida
Do que abrir mão dos meus sonhos, que é de
não precisar
Tantos nomes e lugares, coisas a explicar
Pra dizer quem eu sou – e a dúvida se afasta!
Sou apenas Severino: este que aqui me
apresento.
E Vossa Mercê que ouve, desde o começo,
atento
A mim me dirá que a vós, saber só isso já
basta.
EmmyLibra
May 28, 2013 - ± 3:00 p.m.
* Post criado a partir de atividade proposta pela professora Andréa Moreira (amo!!), na disciplina Psicologia Social (amo também!!), na qual deveríamos criar um novo final para o poema, a partir dos conceitos de Identidade vistos em sala de aula. Tomei, então, a liberdade de tentar escrever continuando o estilo. Nem de longe consegui dar sequência ao brilhante trabalho do João Cabral, claro! Mas fica o texto como recordação da aula e como homenagem ao escritor, que admiro profundamente.
O texto original fala muito de coisas que conheço bem: também migrei muitas vezes, embora em condições bem diferentes e mais fáceis, mas com a mesma velha conotação de abandonar referências para buscar-se em outras novas e desconhecidas... E hoje, se tenho um pouso, se tenho um lugar onde quero estar, foi por ter tido a oportunidade de experimentar diferentes espaços e conhecer pessoas que agora fazem parte da minha vida de modo positivo, para que meu hoje-aqui valha a pena. Andréa Moreira é uma delas. =)
** A quem interessar a leitura do texto original, do João Cabral de Melo Neto, está disponível na íntegra em http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf
Eu recomendo! ;)
Eu recomendo! ;)
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