Wednesday, December 03, 2008

Redenção

 
Eu escrevia muito.

Na verdade, eu escrevia todos os dias. Várias vezes ao dia.
Era como uma necessidade – uma fome.

E o tempo passou, centenas de folhas mortas com palavras inúteis acumularam-se embaixo do meu colchão.

E eu, que dormia sobre a minha vida, achei que viver se resumia ao despertador às sete, bater cartão às oito e umas bolachas cream-cracker no meio disso.

Eu, que dormia sobre a minha vida, achei que sonhar se resumia a bater novamente o cartão às dezoito e ir para a cama lá pelas tantas, para ter pesadelos e imagens surdas dentro de minha cabeça, até que viver recomeçasse.

A rotina tomou conta. Invadiu. Instalou-se. Guiou os meus passos anos a fio. E me acostumei a isso. A gente sempre se acostuma, sempre cai no vício das certezas, abrindo mão da arte e das cores, porque uma é incerta e a outra é arco-íris – abstrata sensação de beleza que se esvai, quando o sol evapora as gotas d’água do ar.

O sol não nasceu, naquele dia em que fiz uma faxina geral em meu quarto e joguei fora as folhas de papel nas quais escrevi a minha alma.

O caminhão de lixo passou pela minha rua quando eu já não lembrava as palavras jacentes que desperdicei, aprisionadas em papéis e tintas de canetas vagabundas. Levou embora o canto dos pássaros, os amores impossíveis e os sons do silêncio que no passado eu era capaz de ouvir, compreender, traduzir. Saiu recheado de ilusões e dobrou a esquina, indiferente. Nem sabia que naquele dia sem sol estava levando a minha alma, prensada entre latas, cascas de frutas, pó de café e papéis higiênicos sujos. Eram os restos de mim que se misturavam ao lixo doméstico. Era uma coisa só, naquele caminhão fétido.

Silêncio. Depois da esquina, o silêncio. Não o silêncio que outrora traduzi, mas o silêncio dos mortos, aquele silêncio doentio e inquietante em que o vácuo do não-existir abafa o nosso grito interior.

Hoje acordei com saudade da minha alma.

Era uma alma doce, apesar de ter (pare)sido inútil por tanto tempo. 

Era uma alma doce, que sabia escrever poemas, sabia enxergar no escuro, sabia contar as estrelas e dar nomes aos bichos de estimação. Era uma alma magrinha, de dedos longos e finos, que tocavam as teclas flutuantes de um piano imaginário... Minha alma de domingos solitários sobre a laje da cozinha, escrevendo longas cartas a ninguém, dando notícias dolorosas de uma depressão entranhada e insistente.

Minha alma de flor, que ninguém conhecia o perfume!

Hoje eu não quero sentir piedade, então sinto vergonha. De ter jogado fora as inutilidades e incertezas que me faziam respirar em meio às sensações ruins que a tristimania me dava.  

Hoje eu desprezo a criatura fria e maquinal que me tornei, caminhando automatizada, entre o despertador, os cartões de ponto, as bolachas cream-cracker, os pesadelos e a mudez de minhas mãos...

Para que servirão as mãos de um sonhador, depois que ele jogar sua alma no caminhão do lixo? Melhor tivesse jogado fora também as mãos, junto com as folhas de papel em que escreveu a sua alma!

Mãos inúteis, cruéis! Ora tradutoras de sonhos, ora capazes de misturar estes mesmos delírios cheios de lirismo ao descartável, à podridão...

Por isso a vergonha. Como quem usa a faca de cortar legumes na cozinha para matar alguém, para depois se dar conta de ter cometido duplo atentado às leis naturais do universo. Como quem dá à ferramenta abençoada uma função nova e macabra, transformando o que é santo em algo podre e mortal.

Dei às minhas mãos poetizas a função de transformar meus sonhos em lixo. E assim, tornei-as sujas, indecentes.

Hoje, busco o perdão das palavras, mas não encontro. Já não sou capaz de escrever como antigamente. Nem de sonhar como antigamente. Nem sei contar estrelas, nem dar nome aos bichos de estimação. Não sei como se faz poesia, nem como beijar sofregamente, nos becos escuros, a boca de um anjo faminto. Não sei mais contemplar o arco-íris, porque o conhecimento da material evidência da luz sobre as gotículas d’água matou a ilusão dos leprechaus, com seus enormes potes de ouro, no final daquela curva multicor...

No lugar do meu espírito poeta há uma marmita cheia de bolachas cream-cracker. Felizmente, elas já não matam mais a minha fome. Infelizmente, eu não sei mais plantar as ilusões que no passado me alimentavam fartamente com seus frutos benignos.

Nunca mais a remissão dos meus pecados. Nunca mais o reencontro com a minha alma pisoteada por urubus no aterro sanitário. Nunca mais a pureza daqueles dedos longos e finos que torturavam as teclas imaginárias do piano voador.

Só a mesma angústia a sufocar meu peito nos dias em que o sol nasce. E nos de chuva também. E nos de outono, ainda. Nos dias todos.

Aquelas longas cartas endereçadas a ninguém falavam das minhas torturas íntimas, das noites insones, das dores todas que humilhavam meu desejo de vida. Mas, em suas entrelinhas, escondiam-se rastros de estrelas cadentes, joaninhas em pétalas de rosas, o perfume dos jasmins e alfazemas que eu plantava à beira do meu tortuoso caminho, enquanto o palmilhava rumo aos leprechaus do arco-íris que só eu enxergava. Nessas cartas e poesias havia um misto de dor e compaixão. Havia lágrimas que se misturavam à saliva do anjo que eu beijava nos becos escuros, e também havia o som daquele piano, grafado em notas musicais que ficavam suspensas entre as palavras, pontuando os textos e dando-lhes etérea vida.

Hoje eu queria a minha alma de volta.

Queria a remissão para o pecado de tê-la mandado embora junto com a inutilidade das horas sobre a laje da cozinha.

É muito tarde. O despertador já soou faz tempo e a cream-cracker amolece sobre o prato. O cartão de ponto ficou sem a batida das oito e ficará sem a das dezoito também, no dia de hoje. Mas os pesadelos... Ah, os pesadelos... Esses me acometerão no meio da noite, impiedosamente, até o fim dos meus dias!

Talvez estejam me castigando por vagar sem alma pelo mundo. Quiçá, queiram apenas me acordar lá pelas tantas, para que eu abra a janela e assista alguma estrela passar, rasgando o céu... Não sei. Nunca mais me atrevi a abrir a janela, depois que o caminhão de lixo dobrou a esquina. 

– Pra que contar estrelas, se não há mais cartas, em cujas entrelinhas eu possa jogar seu rastro de luz?

Quanto àqueles jasmins e alfazemas, morreram todos sob o sol dos dias que têm sol, virando pó e se misturando à confusão das horas inodoras da minha rotina. Seu perfume se esavaiu e nem mesmo a sua lembrança preenche o vazio que ficou no lugar em que outrora havia o meu espírito poeta.

Eu escrevia muito. Todos os dias. Várias vezes por dia. Como uma necessidade – uma fome! Até que me convenci de que isso era inútil e matei, com a faca de cortar legumes, a poesia que havia dentro de mim.

Eu escrevia muito. Me alimentava dos frutos benignos das minhas palavras e da luz das estrelas. Todos os dias. Varias vezes por dia.

Hoje, o sol nasceu meio sem vontade. Mesmo assim, o despertador tocou às sete, como de costume. Nesse dia ímpar, me recusei a levantar, a engolir a cream-cracker, a bater o cartão às oito. Matei, com a faca de cortar legumes, a rotina. Pedi remissão para o pecado de ter vagado sem alma por tanto tempo... E joguei fora a faca de cortar legumes. Estava se tornando um instrumento muito perigoso nas mãos que um dia escreveram poesias!

Hoje à noite, dormirei com a janela aberta, depois de tanto tempo. Levarei a cama para junto dela e contemplarei o céu, com ou sem estrelas. Esperarei a brisa, esperarei o cheiro dos jasmins e alfazemas, esperarei a minha alma... Se ela souber o caminho de volta e se me perdoar, amanhã talvez eu seja novamente capaz de fazer um poema ou uma carta, ouvir o silêncio e traduzir seus segredos nas entrelinhas apaixonadas. Comerei seus abençoados frutos e saciarei a causticante fome de vida que sinto, desde aquele dia em que o sol ficou congelado no horizonte, sem nascer.

Amanhã, sepultarei a rotina sem inscrição alguma em sua lápide! Respirarei música, comerei poesia, batizarei o meu espírito poeta nas águas redentoras do lirismo...

E viverei da utopia – que a incerteza, mesmo perigosa, é mais doce e perfumada do que a dureza das horas vividas sem sonhos.



EmmyLibra  
Dec 3rd, 2008.  10:32am
   

5 comments:

João Paulo said...

Vc como poeta/escritora, continua bem, mas foi muito triste. :-(

Beijo

Maria Moura. said...

é, amiga,
a poesia é mesmo assim, como diz Lispector, um amor incerto.
e o poeta é esse homem de alma perdida, solta no mundo (ou, quem sabe, viajando dentro de um caminhão de lixo), que precisa se perder de si para voltar a se encontrar, em cada poema, na alma do mundo.

quer uma dica???
escreva menos,
mas escreva mais!

bjo.

Felipe Moreira said...

Tb acho que mandou bem?
O que a gente escreve tem um pouco de nos. Os versos vem automaticamente nos punhos, parece que nem passam pela mente. E as vezes sao os punhos que descrevem o que a gente sente, o que passamos e nao nos mesmos.
E importante se tornar agente,
nao se "render" as mesmices do dia dia. Jogar fora alguns papeis, alguams canetas, que tambem sao uma abstraçao de outros aspectos da vida. E necessario ser transparente com os outros e com nos mesmos, é necessario ter e buscar a verdade...

Gosto do que pensa!
Bjusss

Felipe Moreira said...

Tb acho que mandou bem!
O que a gente escreve tem um pouco de nos. Os versos vem automaticamente nos punhos, parece que nem passam pela mente. E as vezes sao os punhos que descrevem o que a gente sente, o que passamos e nao nos mesmos.
E importante se tornar agente,
nao se "render" as mesmices do dia dia. Jogar fora alguns papeis, alguams canetas, que tambem sao uma abstraçao de outros aspectos da vida. E necessario ser transparente com os outros e com nos mesmos, é necessario ter e buscar a verdade...

Gosto do que pensa!
Bjusss

brancasnuvens said...

oi.
entrei no seu blog pq vc fez um comentário lindo no meu. adorei a maneira como vc escreve. é intensa e sincera. muito forte. nao pare de escrever nunca. vou te favoritar. bjus!