Sunday, December 03, 2017

Concretude

Meu sono vem do cansaço.
Já não há mais poesia no domir.
Tenho pesadelos, inquietações,
Reflexos dos meus dias
Quase sempre mal vividos,
Passados por mim, sem lirismo.

A vida não tem mais espaços vazios
Para que eu os preencha com flores.
Há concreto nas ruas,
Concretude demais no coração dos Homens.

A Terra parece multiplicar sua gravidade
E os meus pés,
Outrora caminhantes daa estrelas,
Pisantes de nuvens,
Agora arrastam-se pesadamente
Sobre o solo árido
Das minhas realidades cotidianas.

Emmylibra
Dec 4, 2017 - 0:55 a.m.

Um mosquito que virou tartaruga

A possibilidade da mudança já foi minha marca registrada. Poder alterar a foto do perfil e a frase de abertura no extinto msn, a cor ou o corte dos cabelos, mudar de endereço, mudar de opinião, variar o estilo das músicas que ouvia ao longo das semanas, mudar qualquer coisa! Eu mesma já me reconheci a “metamorfose ambulante” do Raul*.  Tinha coragens e uma força tão grande, que ninguém era capaz de me deter diante de um sonho ou desejo, diante de uma possibilidade de aprendizado e desenvolvimento. Nada era importante o bastante para me fazer parar, um dia sequer, de modificar as coisas à minha volta, modificar-me, transformar.
Penso que estou ficando mesmo velha. Muito velha. Hoje, a possibilidade de permanência é que está sendo meu estilo de vida. Isso pra mim é um péssimo sinal de morte interior. 
[Já me vejo meio "tartaruga do Rubem alves". Eu era, indiscutivelmente, o mosquito!]**
Só para um café pequeno do que tem se tornado minha vida, não mudo minha foto de perfil do Facebook há mais de 3 anos! Não mudo minha opinião sobre certos assuntos, não mudo sequer os assuntos das conversas! Não troco nem mesmo as playlists que escuto – e o pior é que raramente tenho ouvido música...
Minha vida tem estado meio estagnada. Não posso dizer que não sei por quê. Mas dói muito admitir as razões.
Meus sentimentos andam muito fixos, meus pensamentos chegam a ser obsessivos, repetitivos, recorrentes. Minha cabeça trabalha pela mesmice, não pelas transformações e transitoriedade. Uma sensação de enraizamento apodera-se de mim e isso foi o que abominei a minha vida inteira! Já até escrevi a respeito: “Eu não nasci árvore. Não tenho raízes...” Hoje me vejo parada numa rotina que me incomoda, me frustra o tempo inteiro, sem conseguir sair dela, sem conseguir agir para mudar.
Sinto medo do desconhecido, quando antes sentia ânsia de explorar. Tenho inseguranças que antes não faziam parte da minha personalidade, do meu jeito de encarar a vida.  Vejo-me hoje muito incapaz de modificar qualquer coisa que me incomoda ou fere, e vou vivendo assim, dessa rotina desgastante, sem grandes feitos.
Sinto-me aprisionada por escolhas que fiz e faço em nome dessa segurança que, afinal, não existe senão dentro da minha cabeça, cada dia mais limitada por temores de perigos reais e imaginários, cada dia mais esvaziada de sentido. O que antes me impulsionava para crescer, hoje me causa pânico. Saltar no abismo escuro do inexplorado ou do novo era pra mim motivador. Hoje vivo de cautelas, matando sonhos e engavetando desejos.
Logo eu que sempre declarei que não vivia em função de medos... =( 
Deixei de ser a pessoa corajosa e ousada que sempre admirei no espelho, para me tornar essa criatura fraca e medíocre, de quem me envergonho todos os dias.
Sou um resto de mim. Um resto que definha a cada dia, sepultando-se antes do último fôlego, atando-se a conceitos e rotinas sufocantes, pequenas, mesquinhas.
Não gosto da pessoa que me tornei, nos últimos anos....

EmmyLibra

Dec 3rd, 2017 – 9:23 p.m.

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* Música: "Metamorfose Ambulante", de Raul Seixas.
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** Livro: "A Libélula e a Tartaruga", de Rubem Alves, Se ainda não conhece, deveria conhecer! É uma fábula curtinha, até parece um livro infantil.  Mas, certo dia, ele mesmo me disse: "Que bom que percebeu que um livro para crianças nem sempre é um livro para crianças!"
Está disponível em http://wisheslife.blogspot.com.br/2009/08/libelula-e-tartaruga-rubem-alves-livro.html  É um dos melhores livros que já li. Também pudera! O Rubem Alves é, sem dúvida, uma das pessoas mais inteligentes que já passaram pela face da Terra! Faz uma falta... =( Preciso reler muitas vezes essa fábula, para ver se ainda há chance de voltar a ser leve!
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