Monday, January 22, 2007

“Eu esperava um oceano, e és um riacho de Amor” (*)

Ligo o rádio, me sentindo meio sonolenta pela aurora ainda recente, e essa frase, recitada por voz masculina, me vem aos ouvidos, como um convite à meditação: “Eu esperava um oceano, e és um riacho de Amor”
Não sei como se sentia o poeta quando compôs o texto — que seguia cantado ao som de um violão —, até porque não me detive em ouvir o que mais dizia a canção. O impacto da frase em mim foi decisivo: “Eu esperava um oceano, e és um riacho de Amor”
— Desilusão, decepção? Não. Talvez represente os anseios humanos, quando construímos nossas ilusões sentimentais e nos deixamos abrasar pelas paixões. Esperamos do outro, às vezes, um quê de grandeza, de divindade amorosa capaz de sufocar, de matar, se preciso, para provar a grandiosidade do sentimento. Deseja, numa torpe expectativa, ser amada a criatura por algo tão gigantesco quanto a Generosidade Criadora desse Universo sem fim.
Mas o que há de concreto no Amor? — Nada. Nada palpável ou sufocante: apenas gestos e pequenez, coroados de uma serenidade doce e fortificante; um alimento puro e fértil a gotejar, a escorrer por dentro, tão lenta e silenciosamente que aquece ao mais brando raio de sol da primavera; uma fonte inesgotável de vida que, se for devidamente protegida, converte-se em eterna bondade a nos aplacar a sede e nos saciar a fome.
Assim é o Amor: como um riacho sereno e eterno, alimentando as gerações, refrescando nossas carências, batizando-nos e purificando-nos, cobrindo nossa “multidão de erros” e acertos com seus longos e inesgotáveis veios.
Cabe-nos curvar nossas cabeças e deitar nossos joelhos ao solo, estender as mãos de modo receptivo e guardar nossa humildade em esperar não mais do que o frescor de suas preciosas gotas.
Mas somos, geralmente, tão covardes... Assistimos o escoar tranqüilo do Amor em nós, sem a atitude de lavar nossas almas em seu reconfortante leito! E atiramo-nos, impacientes, nos abismos profundos e escuros das paixões que nos afogam e desequilibram com suas ondas e marés, e que, por fim, sempre nos atiram em solitárias areias, sob o escaldante calor do sol, sem sequer nos dar de beber.
As paixões, assim como os oceanos, têm a beleza, a grandeza, a força, a profundidade e o sal - este complemento que envenena-nos e nos faz morrer de sede, quando tentamos beber de sua essência.
Tortuosos são os caminhos do riacho, mas é nas suas margens que os pássaros cantam à tardinha, na hora do sol se pôr.



Aug 13, 1999
7:34 a.m.


* Não tenho informações quanto à autoria da música mencionada. Se alguém souber, por favor, põe no comentário. Tão logo eu saiba, prometo, altero o post. ;) Obrigada e bjos a todos!


1 comment:

João Paulo said...

Tudo que vc escreve é interessante, inteligente.

Sempre quero estar ao seu lado, conversar, trocar idéias, dizer besteiras, ter sua amizade tão importante pra mim.

Beijo.