Wednesday, January 10, 2007

Para a ave mais linda que já voou sobre minha cabeça!



Sinto saudades de alguém que insiste em ficar escondida no passado...


Era uma velha amiga, uma ave linda, que sonhava ver suas asas crescidas, para alçar vôo sobre os campos, cerrados, vales e águas desse país imenso.

Era alguém que tinha um quê de natureza, que lhe dava um ar meio selvagem, meio instintiva, e que nos momentos mais importantes de minha vida eu sempre costumava espelhar-me em sua força para adquirir coragem e enfrentar meus desafios.

Sonhava ser grande – só um pouquinho grande! Sonhava com sua voz chegando aos ouvidos das gentes humildes que moram do outro lado do país, e que seus dedos pudessem arrancar melodias bonitas de um violão, para agradar os ouvidos das gentes de bons ouvidos do outro lado da rua. Sonhava, e em seu sonho bom, podíamos compartilhar de sua felicidade por ser livre e poder sonhar.
Ensinava a quem quisesse aprender, que a vida se constrói com obstinação, e que palavras como: longe, difícil, incapaz e inacessível são apenas frágeis paredes de tijolos mal apoiados, fingindo serem muralhas, para fazer estancar os menos avisados, que não ousam experimentar um empurrãozinho, ficando presos em seus medos, a contemplar o sol por pequenas frestas.


Sabe, eu costumava me identificar muito com sua vida. Era parte de mim furtar sua geladeira, sempre com algo doce e umas garrafas pequenas de um troço borbulhante — um tal de cooler — que nós consumíamos vendo o sol se pôr, logo adiante do morro Bom Jesus. Era parte de mim dormir ao som de sua voz, e de seus ensaios de violão e contra-baixo.

Sabe há quanto tempo não escuto Bichinho de Lã? Nem eu sei. Perdi a conta. Acho que ainda era criança quando ouvi pela última vez — ou pensava que era criança?

Era um tempo do qual às vezes me recordo com muita nostalgia... Tenho a impressão de que esta que vive hoje conosco até conheceu esse alguém de quem falo. Tem uns arroubos, vez em quando, para fazer pique-niques, coisas desse tipo, mas nada é como antes. Nada tem a mesma inocência das serras, o mesmo cheirinho de mato seco, ou as caminhadas sobre os trilhos do trem... Nada tem o mesmo valor, ou o mesmo encantamento.

Minha amiga gostava da casa, e enfeitava-a com carinho. Mas não se deixava dominar por interesses domésticos — estava acima dessas coisas pelas quais as pessoas comuns se deixam escravizar!

Corte e costura? Nunca! Seu negócio era subir num palco, cantar, varar a madrugada, dançar e, por fim, seqüestrar a guitarra do colega mais divertido, para obrigá-lo a nos acompanhar, só para ficar ouvindo suas piadas até o dia amanhecer, na mais completa preguiça de domingo!

É... Sinto mesmo muita falta de minha ave. Ela agora prefere ter uma mísera andorinhazinha na mão, do que longas asas para sair voando! Já não sonha mais com o que sonham os anjos, nem sequer acredita que eles existem, da mesma forma como antes acreditava.

E eu, que aprendi com ela a acreditar na imortalidade da alma, vejo-a hoje afastar-se de suas crenças, pela vontade alheia — e, pasmem os velhos conhecidos todos: esta foi uma façanha que nem Lili, com todo o seu autoritarismo e argumentos conseguiu realizar! Dou a mão à palmatória: isto é que é poder de persuasão!

Queria poder reencontrar esta grande amiga dos meus tempos de infância, poder falar para ela de minhas dificuldades, contar meus sonhos, levar o Marcelo para brincar em sua companhia, de vez em quando, mas eu já não a encontro mais em casa há algum tempo. Tudo está muito silencioso por lá. Só há uma outra pessoa tentando imitar seus passos, mas é alguém muito distante daquilo que ela realmente foi um dia. Muito diferente daquela que eu conhecia tão bem, e que me ensinava tanto...
Num dos nossos últimos encontros, eu lembro bem – foi precisamente em agosto de 98, ela falou: “— Mas ele não tem cara de Edu — tem cara de Marcelo!” — E escolheu, naquele momento, o nome do meu filho.


É muito raro perceber, nessa pessoa que habita sua casa hoje, alguma coisa que se pareça com o brilho que havia em seu olhar, ou com a melodia de sua voz. Eu já não sinto, há bastante tempo, aquele abraço de mãe, como naquele cruzamento, perto da maternidade, quando eu ainda chorava a partida do Raul... Já não vislumbro nos seus passos a segurança de quem sabia aonde queria chegar, e que tantas vezes eu segui, aprendendo com ela a caminhar com autonomia. Eu já não consigo mais reconhecer seu cheiro em mim, ou seu gosto musical afinado com o meu, ou seu estilo literário se confundindo com minha vontade de devorar seus textos e canções... Eu já não a reconheço mais, em meio à multidão de pessoas comuns, que se entregam à vida como quem se rende a um inimigo poderoso, contra quem se cansou de lutar.
Não sei o que será de mim daqui por diante. Creio que agora estou realmente sozinha, para pôr em prática o que aprendi, enquanto ainda em sua companhia. Não posso fungar dentro do copo, nem limpar o nariz com os dedos, ou arrotar na frente das visitas... Não devo falar palavrões, nem ser desonesta, porque isso me faria uma pessoa mal-querida. Não devo jogar lixo nas ruas, ou maltratar as formiguinhas, “porque toda formiguinha tem mãe, sabe? E ela espera que sua filhinha volte para casa para o jantar. Já pensou se mamãe nos esperasse para jantar e nós estivéssemos machucadas na rua, pela maldade de alguém?” — E tento passar essas pequenas lições de bondade para meu pequeno, talvez tentando fazer dele o que ela tentou fazer de mim, um dia...

Eu ainda pretendo refletir em meu rosto muitos de seus sorrisos, viu? Eu ainda pretendo ser ao menos um pequeno reflexo do que você representou para mim, toda a minha vida, meu canário-do-reino! Ainda lhe amo muito, mesmo estando tão longe de seu universo pessoal. Só que, às vezes, a saudade é maior, principalmente quando vejo alguma estrela diferente e lembro de nossas pesquisas com luneta, ou quando há um pôr-de-sol mais alaranjado, ou ainda quando me vêm à memória aventuras como aquela madrugada na avenida Caxangá, voltando da Marina Lima... ou simplesmente quando me pego repetindo algum gesto disciplinado por alguma daquelas velhas regrinhas de boa conduta que me ensinou.
Aí dói, sabe? Dá um aperto no peito, uma vontade que aquela ave voltasse a voar e enfeitar o céu, só pra eu ficar contemplando o brilho de suas penas ao sol...


Você nunca me disse o que fazer quando sentisse saudade.

E você também esqueceu de se despedir...

(fev 28/2001)

1 comment:

MARCELINO said...

Um dos poemas mais envolventes que já li...
Fazia tempo, acho que desde quando lia shakespeare ou Machado de Assis não sentia novamente a alegria de ler um bom texto. E olhe que é apenas uma carta que tu escreveste.

Penso que se estivesse mesmo disposta a escrever um livro romantico, produzirias obras primas de nossa literatura.

Parabéns!!!


do seu Fan:
Marcelino